Mais uma edição repleta de pessoas, boas música e excelentes concertos imprevistos.
É quase impossível ver tudo o que se queremos num festival como o NOS Alive. Faltam-nos pernas para fazermos uns quantos metros que separam os palcos. Isto sem contar com os horários cruzados que nos obrigam a fazer escolhas complicadas e que nos deixam um sabor amargo na boca. Afinal, queremos é ver todos os concertos que planeámos.
Mesmo assim, não se pode dizer que esta edição do NOS Alive foi dececionante. Pelo contrário, talvez tenha sido uma das mais interessantes em anos recentes. Já se sabia que íamos ter os Radiohead e os Arcade Fire a liderar o topo da lista de concertos que não podíamos perder ao mesmo tempo que se geravam expetativas para ver Father John Misty, Tame Impala, Soulwax ou Grimes.
Com um espírito eclético, semelhante ao melhor do que existe no estrangeiro, o festival português está na linha da frente em comparação com os outros festivais nacionais. Cada vez mais internacional, a grande qualidade das contratações do Alive reflete a presença de um público que não tem idade definida, capaz de agradar a gregos, troianos e a outros tantos, numa clara preocupação em apresentar concertos para os mais jovens, saudosistas, mais velhos, estrangeiros, portugueses. Bem, um pouco de tudo. E isso é sempre salutar.
Dito isto, falemos do que importa. Da música.
7 de julho
Biffy Clyro – O trio escocês é o expoente máximo do rock europeu. Inovadores e arrojados, trouxeram a Portugal o novíssimo Ellipsis que apresentaram ao público com a pujança que já lhes é tradicional. Entre “Wolves Of Winter” ou “On A Bang” – duas das melhores músicas do novo álbum – e os riffs de “Victory Over The Sun”, “Mountains”, “Many Of Horrors”, Simon Neill e os irmãos Johnston sabem como cativar uma audiência sem nunca perderem a essência da música que estão a tocar. Um bom concerto que foi adorado pelo público inglês, como seria de esperar.
Robert Plant – A idade podia pesar. Estamos a falar do vocalista dos Led Zeppelin… Nada mais errado. Ao lado dos Sensational Space Shifters, Plant trouxe consigo um repertório fenomenal que foi variando entre as músicas da sua antiga banda e aquelas que compôs a solo. As guitarras orelhudas contrastaram com as sonoridades mais esotéricas que sempre o acompanharam ao longo de tantos anos de estrada. É certo que foi com faixas dos Led Zeppelin que o público mais se emocionou, mas isso não é o suficiente para lhe retirar o mérito de ter dado um dos espetáculos mais interessantes desta edição.
Wolf Alice – Como aconteceu em anos anteriores com os The XX, The Gossip e James Blake, os jovens ingleses encheram o palco Heineken ao ponto de muitas pessoas terem sido obrigadas a assistir ao espetáculo a vários metros de distância do começo da tenda. Espantados com o que estava a acontecer, os membros da banda impuseram ainda mais o seu estilo punk rock e grunge, dando mais força ao concerto, alimentando-se de uma energia que durou muitos minutos depois do concerto ter terminado. É curioso ver que bandas mais alternativas como os Wolf Alice caem no goto dos portugueses, que abdicam de nomes como Pixies para ver aquela que é uma das novas coqueluches do rock vindo de Inglaterra. Como devem imaginar, “Bros” colocou aquela tenda ao rubro.
Soulwax – A maior festa que se viu no festival. Os belgas David e Stephen incendiaram o palco secundário com a combinação de música eletrónica e rock. Existe algo de poderoso neste novo espetáculo da banda que vai mudando ao longo do concerto como se tivesse a capacidade inata de criar aquele entusiasmo que faz o coração bater mais forte para depois o acalmar à espera da próxima dose de energia. Quase ninguém parou de saltar e no fim o cansaço era evidente.
The Chemical Brothers – Este não foi o primeiro rodeo deles, nem o nosso. Já sabíamos o que a casa gastava no que toca aos reis da eletrónica. Inovadores e incomparáveis, deram o concerto que acabou por não acontecer há uns anos quando o palco principal do festival não os suportou, literalmente. Sempre ligado à corrente, o concerto percorreu o vasto repertório do duo com ênfase nos grande hits que trouxeram nova roupagem como “Do It Again”, “Galvanize” ou o sempre fenomenal “Hey Boy Hey Girl”.
8 de julho
Foals – Continuam a dar um dos melhores espetáculos ao vivo que já vi e estou a falar de uns quantos. A banda liderada por Yannis tem sido consistente ao longo dos anos com álbuns excelentes que provam que é possível inovar mantendo aquilo que nos define. O concerto foi repleto de guitarradas punk, batidas cativantes e músicas perfeitas para serem tocadas em palco. O público português conhece bem os Foals e ficou com eles até ao fim, como acredito que será da próxima vez que pisarem solo nacional.
Tame Impala – Tenho de ser honesto: não era grande fã da banda. Realmente, nunca consegui encaixar com os álbuns demasiado à lá Woodstock que sempre me soaram mais repetitivos que outra coisa. Depois de os ver ao vivo, fiquei impressionado. A ligação que têm com o nosso país foi mais que evidente com o público a entoar cada faixa com força nos pulmões, o que me deu um “boost” de energia e me levou a pular de alegria. As músicas da banda são feitas para grandes arenas e provavelmente faltava-me isso para perceber que os Tame Impala não são tão fritos como achava.
Father John Misty – O Hank Moody da música atual. O Bukowski das letras. O homem que faz qualquer miúda derreter como um gelado no verão. O rock sulista folk de J. Tillman fez as delícias de quem perdeu um pouco dos Radiohead, intercalando o mais recente I Love You, Honeybear com Fear Fun. Existe algo de sincero na música do homem que passou de baterista dos Fleet Foxes para vocalista daquilo que escreve e essa sinceridade sente-se no modo como se apresenta em palco e como se entrega a cada música, com um charme e delicadeza acima do normal.
Radiohead – Vou tentar resumir isto sem ser espancado… Foi um concerto mediano. Nem bom nem mau. Nem uma merda nem fantástico. Foi… irreverente mas também complicado. Os problemas de som que quase mataram o começo do concerto também não ajudaram e começar aquele que era o evento mais esperado do festival com “Daydreaming” como a segunda música atirou logo muitas pessoas para o chão, com uma cerveja na mão. Houve qualquer coisa de aborrecida no concerto dos Radiohead apesar das muitas palmas e berros e gritos. As coisas começaram a melhorar com “Talk Show Host” e “Lotus Flower” e atingiram o apogeu a partir de “Reckoner” até ao fim do primeiro encore. A primeira parte do concerto esteve ligada ao recente A Moon Shaped Pool que provavelmente ainda não está no coração dos portugueses que esperavam músicas mais emblemáticas da banda, apesar disso ser um erro. Os Radiohead tocam a música deles, da maneira deles. Ou se gosta ou não. O calor morno transformou-se em fogo no segundo encore com “Creep” – uma das músicas mais irritantes deles – e “Karma Police”, numa altura em que muitas pessoas já corriam para o palco Heineken para ver Two Door Cinema Club. No fim ficou a sensação de dever cumprido. Mas demorou a chegar…
Two Door Cinema Club – A segunda grande enchente do palco secundário foi com os jovens ingleses que trouxeram a pop disfarçada de rock e eletrónica até Portugal e os seus dois álbuns. Completamente cheia, a tenda encheu-se de calor, suor, mãos no ar e muitas entoações de frases com “Come Back Home”, “Undercover Martyn” ou “Do You Want It All”. O público nunca desarmou num concerto que pareceu demasiado rápido para aquilo que podia ter sido. Mas como estamos a falar de um festival com slots contados, é essencial saber escolher o que se leva para palco e nesse aspeto os Two Door Cinema Club saíram como vencedores. Foi um excelente concerto que prova que existem bandas “relativamente” pequenas que sabem como chegar ao coração dos ouvintes.
Hot Chip – Não foi o melhor concerto deles. Já vi uns quantos para poder isto. Depois da energia de Two Door o público esperava uma entrada mais energética dos nerds da eletrónica o que acabaram por ganhar ritmo à terceira música com “One Life Stand”. Os Hot Chip são uma banda perfeita para quem quer dançar e com músicas como “Night and Day” ou “Over and Over” dançar é coisa que toda a gente faz. Mas não se mexeu a anca como no SBSR de 2012 em que colocaram a Herdade do Cabeço da Flauta no Meco ao rubro. Esse concerto ficou na memória de quase todos que assistiram. Este vai ficar apenas uns meses.
9 de julho
Isaura – Menina da pop eletrónica portuguesa, a jovem cantora subiu ao palco com uma audiência composta que aproveitou para descobrir um pouco mais da miúda para além de “Change It”. Com um espetáculo que encaixa melhor em ambientes mais compactos, Isaura não desarmou e trouxe um verdadeiro arsenal de músicas de outros artistas às quais deu uma nova roupagem e distribuiu com energia. O ar de timidez da cantora foi evidente logo à partida, algo que deve ir mudando com o tempo porque existe uma verdadeira ligação da música que faz com quem a ouve e ela vive das emoções que a artista expressa em cima do palco.
Band Of Horses – Talvez pouco apreciados por terras lusas, a banda teve um trabalho complicado de encaixar o rock sulista nos ouvidos dos portugueses que só conhecem os Kings Of Leon. Mesmo assim, deram um bom concerto que satisfez quem os foi ver, virou cabeças de quem os estava a ouvir e até chamou umas quantas famílias que tinham ido com os filhos.
Paus – Quando se leva madeira para um fogo, aquilo arde e bem. A conjugação da banda de Hélio Morais com a dedicação dos fãs incendiou por completo o palco secundário. É bom ver que uma banda portuguesa consegue ter uma base sólida de pessoas que conhecem as suas músicas ao mesmo tempo que ganha novos fãs, tudo num só espetáculo. A energia do concerto foi vibrante, com muitas músicas a serem recebidas de braços abertos, num reciprocidade de sentimentos.
Arcade Fire – São sem dúvida uma das melhores bandas do mundo, com algumas das melhores músicas que já ouvi. E ouvi. E voltei a ouvir. Aí é que reside o atual problema dos Arcade Fire: já ouvimos as grandes músicas vezes demais. Está na altura de trazerem algo novo. Nós precisamos disso. É sempre emocionante ouvir “Reflektor” ou “Here Comes The Night Time” ao vivo, não me entendam mal. Mas sinto que faltou algo novo para ser tudo mais emocionante. Esta é uma banda que todas as pessoas devem ver ao vivo pelo menos uma vez na vida porque não se vão arrepender e vão guardar na memória e para muitos que estiveram presentes no NOS Alive de certeza que vai ser assim. PS: “Wake Up” é uma música que devem mostrar aos vossos filhos. É uma das músicas da minha vida. Vão perceber porquê quando olharem para os olhos deles a cantar.
Grimes – Se a Lady Gaga tivesse uma filha, seria Claire Boucher. Um camaleão em palco que nunca fica parada. Acompanhada por duas bailarinas, o concerto nunca teve um momento morto com Grimes a assumir a posição de destaque. Dona da pop atual, Claire sabe fazer fazer músicas como ninguém. É inovadora e irreverente, duas características essenciais para os artistas que se querem manter relevantes. Com o público já aquecido por quase três dias de concertos, ainda houve energia para muitos pulos e para uma tremenda satisfação no final.
Ratatat – Coube-lhes a dura tarefa de encerrar o palco secundário, o que poderia ser ingrato. A palavra em questão é “poderia” porque o concerto foi próximo de fantástico. Dois exímios guitarristas, Mike e Evan completam-se em palco e sabem como conjugar o rock com a eletrónica sem precisarem de dizer uma palavra. Ao vivo ganham uma outra vida que não se obtém só com os álbuns, transformando as músicas em algo mais emocionante. Apesar do cansaço evidente do público, ninguém arredou pé até ao fim do concerto.
Para o ano temos mais.