Três dias de muita música e calor no Super Bock Super Rock

Falta alguma magia ao festival que se instalou de vez na zona do Parque das Nações.

Durante três longos e quentes dias, a zona em torno do Meo Arena encheu-se de pessoas que quiseram estar presentes na edição deste ano do Super Bock Super Rock. Apenas o último dia esgotou – certamente por causa de Kendrick Lamar – o que não quer dizer que não tenham existido outras surpresas nos dias anteriores.

De pedra e cal numa zona privilegiada de Lisboa, o festival fez algumas mudanças na disposição do recinto, mantendo os palcos nos locais que estavam no ano anterior. Mas, tal como na 21ª edição, a sensação de que se perdeu alguma da magia da zona do Meco mantém-se. É verdade que o pó era caótico e as filas intermináveis, mas no fundo era isso que dava um certo encanto ao evento que vendia não só pela música, mas pelo conceito em si. Neste “novo” recinto, não se sente uma ligação ao festival que já nos deu tantas memórias. É estranho entrar no Meo Arena ainda de dia para ver dois concertos e de repente já ser de noite ou então ter um palco debaixo de um pavilhão que é tudo o que pode ser considerado como impessoal.

Mas a verdade é que o Meco tornou-se demasiado caótico. Era indiscutível que algo tinha de mudar. Assim foi.

Passando para a música, desde muito cedo se sabia que o último dia estava esgotado graças a Kendrick Lamar, o rei indiscutível do hip-hop mundial nesta altura. Nos outros dois dias, houve desilusões, surpresas, revivalismo. Um pouco de tudo.

14 de julho

Villagers – O pop/rock da banda irlandesa assentou como uma luva no princípio da noite quente que se fazia sentir, com a voz melosa de Connor O’Brien a ter de ser bem aumentada para alguém a poder ouvir. Sem serem particularmente carismáticos, os Villagers sabem o que fazem em palco. Afinal têm quatro álbuns editados. Experiência não lhes falta. Foi um concerto agradável para quem os viu, ficando a sensação de que ninguém se vai recordar deles mais tarde.

The Temper Trap – Passaram seis anos desde a última vez que a banda australiana pisou solo nacional, ainda nas terras poeirentas do Meco. Na altura estávamos no apogeu de “Sweet Disposition”, a música que fazia as delícias das rádios nacionais, e o concerto não desiludiu. Desta vez, a banda trouxe mais dois novos álbuns e coube-lhes a tarefa de abrir a noite no Meo Arena. Foi evidente que a sala continua com problemas de acústica, algo que não incomodou os jovens australianos. O rock acessível permite refrães orelhudos e guitarradas pop que assentam bem nos ouvidos dos mais jovens, e sejamos sinceros, dos trintões.

The National – O retorno a casa de uma das bandas mais queridas do público português. Matt Berninger e companhia sabem perfeitamente com o que contam quando vêm a Portugal. É evidente a dedicação que temos à banda e o carinho que lhes damos, mesmo quando nem tudo corre às mil maravilhas. O cansaço da banda foi um pouco notório em palco (os meses seguidos em digressão fazem isso a qualquer um) sem nunca deixar de lhes retirar mérito pelas músicas que estavam a tocar. A preparar um novo álbum, os The National deram-nos três músicas novas, deixando a entender que está prestes a começar um novo ciclo. Como sempre, as músicas dos The National refletem a vida tal como ela é: por vezes dolorosa e triste, outras alegre, outras surpreendente. A magia da banda reside nessa excelente capacidade de interligar as canções emocionais com arranjos rock dignos de uma arena como aquela. O final com “England”, “Fake Empire”, “Mr. November”, “Terrible Love” e a incrível “Vanderlyle Crybaby Geeks” colocou o público ao rubro em poucos minutos e a banda a deixou-nos completamente extasiados. Só faltou “About Today”, meus senhores…

Kurt Vile – A guitarra fácil do cantor que tem tanto de cabelo como de talento foi facilmente aceite pelo público português, que sabia com o que contar quando se deslocou ao palco EDP. O calor que se fazia sentir parecia aumentar a cada vez que o músico de Filadélfia acelerava o ritmo, mostrando os dotes de rockeiro da nova geração.

Jamie XX – Uma plateia ansiosa por um dos membros dos The XX começava a querer rapidez para que o concerto começasse como se estivesse já tudo planeado para depois ir ver Disclosure. É justo dizer que Jamie foge ao conceito de um típico DJ a passar músicas que têm de ser “cosidas” para soarem a uma som ao mesmo tempo que não é um músico per si que ali está. Se calhar fará sentido colocar o rapaz inglês na categoria de produtor que gosta de pôr as pessoas a dançar. Foi esse o seu trabalho e fê-lo bem.

Disclosure – Começo por dizer que os dois irmãos Guy e Lawrence fazem boa house music. E ficamos por aqui. Não sendo um grande fã do estilo, consigo encontrar grandes qualidades naquilo que os Disclosure têm que os separa dos restantes, como a capacidade de levar para o palco algo mais que boas batidas e sintetizadores. A particularidade de tocarem ao vivo é o que lhes dá ainda mais interesse quando se vê a banda num palco. Contudo, não temos muito mais que isso. Poderíamos esperar novas roupagens ou remisturas mas os irmãos preferem jogar pelo seguro e fazer o que sabem: tocar as suas músicas sem grande surpresa. Ao fim de algum tempo torna-se aborrecido. Para quem viu Disclosure três vezes ao vivo, a única surpresa que tem é o alinhamento.

15 de julho

Bloc Party – 2010. Esse era o ano dos Bloc Party. Era aí que estavam ao rubro em todo o mundo. Tinham álbuns excelentes, singles poderosos, guitarradas que ficam para a história. De um momento para o outro acabou-se tudo. Os Bloc Party já não são a mesma banda. Em 2010 fechavam cartazes, agora apenas começam a noite. Se isto não é andar para trás então não sei o que será. Com apenas dois membros originais, a banda sofreu uma mudança radical. Se fecharmos os olhos soa tudo igual, é verdade. Contudo, as músicas perderam-se no estilo demasiado eletrónico de Kele Okereke deixando para trás hinos épicos como “Banquet”. Um alinhamento sofre com isso, tal como aconteceu. Até parece que as músicas dos “antigos” Bloc Party são tocadas só porque tem de ser. Isso nunca é bom.

Iggy Pop – O último reduto do rock antigo que ainda está ali para as curvas, festas loucas e enxertos de porrada se for necessário. Com quase 70 anos, Iggy é um tornado de energia que se alimenta das guitarras de uma outra geração ao mesmo tempo que quase nos dá uma aula de como deve ser o rock: sujo, sincero, vingador. É impossível ficar indiferente a “The Passenger” ou “Lust for Life” e, quer se goste ou não do rock agressivo de Iggy, há que lhe dar o mérito de ser um dos poucos rapazes da sua geração que não só está vivo como é capaz de colocar os putos mais jovens a um canto quando se fala de energia.

Rhye – É sempre um prazer ouvir esta banda que soa tão distinta como original com a ligação ao jazz e sons melódicos que o vocalista Milosh usa com mestria a esconder a cara por detrás de uma voz angelical. Com apenas um álbum no saco, é interessante ver como se mantêm relevantes. Pena ter estado pouca gente a assistir ao espetáculo.

Mac Demarco – Irritante sem ser aborrecido. É a melhor maneira que tenho de descrever o concerto. É certo que o público estava entusiasmado, mas não foi o suficiente para deixar uma grande imagem positiva. O rock de praia feito em modo low fi acabou por ser repetitivo em palco tal como é em álbum.

16 de julho

Mike El Nite – Se Sam The Kid é o rei do hip hop nacional, Mike é o príncipe que quer ocupar o trono. Bem mais explosivo ao vivo, é capaz de trazer o que tem de melhor: a capacidade lírica e as batidas desconexas que fazem dele um nome pesado no mundo da música nacional. Alimentado-se da vitória de Portugal no Euro 2016, Mike deu um dos concertos mais interessantes no palco Antena 3 e deixou a imagem de que se prepara para dar o salto para a big league.

Kelela – Linda e deslumbrante, a jovem americana vive da mesma fonte que FKA Twigs com música RnB que soa tão atraente como calorosa. Descontraída, Kelela mostrou os grandes dotes vocais que a tornam um nome a ter em conta para os anos que se avizinham. Se calhar estava meio perdida no meio de um dia demasiado quente para um concerto tão calmo que as pessoas aos poucos foram abandonando o recinto em busca de algo mais mexido.

Orelha Negra – Fred, Sam, Francisco João e Cruzfader já são nomes bem conhecidos do público portanto não foi estranho ver o Meo Arena cheio para assistir ao concerto da nossa super banda. Escondidos atrás de enormes panos só permitiam ver a silhueta dos artistas, a banda fez o que sabe fazer melhor: pegar em pedaços de músicas, dar-lhes uma nova roupagem e criar novos conceitos que sabem tão bem como uma imperial numa noite quente de verão. Enquanto se espera pelo novo álbum que tarda em sair, os Orelha Negra percorreram o melhor que o catálogo hip-hop tem para oferecer sem nunca esquecer os originais que lhes deram tanta fama. Infelizmente não tivemos direito a convidados especiais, mas “Throwback” e “Canal 115” soam tão bem como há uns anos. Foi um excelente começo para o que se avizinhava.

De La Soul – A idade não tem peso. É um facto. Com tantos anos de trabalho, podíamos pensar que De La Soul seria aquela banda porreira para abrir para Kendrick Lamar. Sejamos sinceros, muitos dos presentes só conheciam a banda da colaboração dos Gorillaz. Nada disso interessou porque os três MC’s souberam aproveitar a oportunidade ao máximo, alimentado a energia do público e recebendo a energia de volta para depois a lançar três vezes mais forte. Sem perderem tempo perceberam que não precisavam de estar ali a apresentar-se deixando que o repertório falasse por si. Para quem os acompanha, sabe que poucas coisas mudam e mais uma vez, aqui nada mudou. As músicas falam por si e não se mexe em equipa vencedora. Foi muito interessante ver que o público português sabe apreciar bom hip-hop quando o ouve, mesmo que seja pela primeira vez para muitos.

Kendrick Lamar – O que dizer? Como é que se traduz um concerto destes em palavras? Não é nada fácil, digo-vos já. Deste SBSR e do rival Alive, tivemos em Kendrick Lamar o melhor concerto dos festivais. Sentia-se no ar a emoção e o nervosismo para ver aquele que é o expoente máximo do hip-hop a nível mundial. Com álbuns de sucesso – cada um melhor que o anterior! – Kendrick transformou este jogo. Ultrapassou Kanye no que toca às letras, bateu Drake nos singles, manteve a tradição dos velhos reis do estilo musical que sabem que cada palavra pode ser uma faca pontiaguda. Logo no primeiro acorde percebeu-se que o Meo Arena ia entrar em ebulição. Não há como não ficar espantando com a dedicação e entrega do rapper a músicas que daqui a uns anos vão tornar-se lendárias como “M.A.A.D City”, “Backseat Freestyle” e especialmente “Alright”, um hino aos movimentos sociais que se tornam cada vez mais relevantes nas sociedades ocidentais. Durante hora e meia, o público nunca parou de saltar, cantar, abanar as mãos e gritar como se quisesse que o concerto não tivesse um fim. A energia não passou despercebida por Kendrick que durante uns longos minutos olhou para a arena com ar de quem iria verter uma lágrima perante uma multidão completamente rendida ao talento do rapper. Existe algo de verdadeiramente especial em Kendrick Lamar que não se restringe ao que se ouve nos álbuns. Aliás, é em palco que mostra que não existem caminhos curtos para o sucesso. Cada rima é dita com a ferocidade de um leão que nunca fica sem voz ou criatividade. No mundo atual do hip-hop isto é muito mais que talento, é uma consciencialização do mundo que nos rodeia e das histórias que nos afetam todos os dias. O nível de Kendrick é absolutamente incomparável e ficou clara a ideia de que Portugal entende a mensagem que o rapper quer passar. Esta é a nova casa dele. Será sempre bem recebido. Espera-se já por um próximo concerto. Por favor que seja rápido.

Para o ano teremos mais Super Bock Super Rock.