Depois de quatro anos de muita expectativa, o quebra corações do r’n’b voltou. A espera valeu a pena?
Após meses e meses de antecipação, Frank Ocean voltou à superfície não com um mas com dois álbuns, Blonde e Endless.
Enigmático e recluso de uma sociedade cada vez mais ansiosa, o cantor remeteu-se ao silêncio depois do lançamento de Channel Orange em 2012. Afastou-se da imprensa, acabou com as contas das redes sociais, fechou-se no seu casulo de criatividade e deixou que o tempo o ajudasse a criar um novo projeto que correspondesse às suas expectativas.
Quando Endless foi lançado como um álbum visual de 45 minutos em que a construção musical é feita de camadas, sons sobrepostos e desconexos, os fãs foram apanhados de surpresa. Não era bem aquilo que se esperava de um artista que alcançou o sucesso musical com um álbum tão comercial e abrangente como Channel Orange. Este Endless mais parecia um projeto amador, antigo, que acabou por encontrar a luz do dia em forma de plataforma visual.
48 horas depois, surge Blonde, o terceiro álbum oficial de Frank Ocean. Mais uma vez, longe das expectativas. Realmente não era o que se esperava. É notória a grande mudança que o artista fez nestes quatro anos, procurando dar voz a uma faceta ainda mais introspectiva e experimentalista que foge dos grandes sons do r’n’b para camadas sonoras mais complexas, desconcertantes, quase improvisadas.
O disco é a representação das emoções de Ocean, compactadas em 17 músicas que misturam uma enorme qualidade lírica com um novo experimentalismo sonoro muito ligado aos anos 80 e às guitarras elétricas à Radiohead. Sente-se a mão de Jonny Greenwood (guitarrista da banda britânica) em todos os lados de Blonde. Despojado de grande arranjos, o álbum contrasta fortemente com o antecessor causando uma ligeira sensação de desconforto que pode funcionar ou não.
É certo que os artistas procuram novas formas de expressar as suas ideias, sem copiarem o que fica para trás, inovando naquela que é a sua arte. Por outro lado, o experimentalismo musical tem-se tornado numa espécie de “cliché” dos artistas que gostam de se destacar. Relembramos Beyoncé e Kanye West, duas das maiores estrelas mundiais, que apreciam descaradamente o choque e o contraste de álbuns, sem nunca repetirem a mesma fórmula.
O problema é que o experimentalismo atual acaba por ser uma fórmula introspectiva que poucos conseguem realmente compreender.
Em Blonde, esse experimentalismo torna o álbum por vezes aborrecido e monótono, como se não deixasse qualquer marca em quem o ouve uma, duas, três vezes. Tem músicas que relembram o “velho” Ocean como “Nikes” ou “Pink + White”, em que se encontram pedaços musicais que estão bem lapidados como uma casa que, quando se vê de fora, sente-se que por dentro tem qualquer coisa de fenomenal. Por outro lado, “Futura Free” acaba por abusar das distorções ao ponto de aborrecer qualquer um.
Se nos afastarmos da música, é nas letras que Frank Ocean acaba por ter o maior mérito com Blonde, ao explorar a assumida bissexualidade em “Bad Religion” de Channel Orange com “Seigfried” ou a infância mesclada em “Ivy”. Numa altura em que o movimento Black Lives Matter se assumiu como um importante pedaço da sociedade norte-americana, é com “Nikes” que Ocean relembra Trayvon Martin (o jovem morto pela polícia em 2012 na Flórida) sem entrar no tema com a força pujante de um Kendrick Lamar.
Após várias audições de Blonde, o álbum parece ser uma espécie de corte e costura de tudo o que apareceu no coração de Ocean ao longo de quatro anos, martelados e encaixados com mestria de quem faz o que quer porque o pode fazer. Afinal, Channel Orange serviu para alguma coisa. Não é um trabalho de fácil audição, certo. É complexo e inesperado? É. Mas é seu. Esta é a vida, alma e espírito de Frank Ocean colocados em camadas de sons e letras que se misturam numa delicada combinação.
Nesse ponto de vista, Blonde cumpre o seu desígnio. O que reflete na carreira do jovem artista ainda está para ser visto.