Crítica: The Colour In Anything, de James Blake

As texturas nunca se esgotam na imaginação deste rapaz inglês.

Bastaram três discos em cinco anos para elevar o nome de James Blake ao estatuto de poeta de uma geração complexa como a atual. Numa altura em que o pop e o hip-hop dominam as tabelas a nível mundial, o retorno do inglês é uma enorme lufada de ar fresco naquilo que podemos ouvir por aí. São muito poucos os artistas que conseguem transcrever os sentimentos através da simplicidade escondida nas teclas de um piano.

Sempre envolto no dubstep e nos sintetizadores, James Blake tornou-se no expoente máximo da música desconexa, sentimental e espaçosa que foi cativando os fãs desde os tempos do primeiro EP. Se os dois primeiro álbuns exploram a natureza introspetiva de um artista que tem muito para dizer, este The Colour In Anything não foge à regra apesar de se sentir algo diferente. Existe, neste novo trabalho, uma vontade de expandir ainda mais os loops que se ouvem vezes sem conta, sem os tornar aborrecidos.

Nota-se uma influência de novos colaboradores – como Rick Rubin – alternando o passando e moldando o futuro já que, como o próprio artista referiu em entrevista, este é o primeiro álbum em que Blake deu espaço para input externo no que toca ao processo criativo. A produção de The Colour In Anything é superior aos outros trabalhos prévios, remisturando os traços gerais do artista com aquilo que pode ser considerado uma sonoridade futurista. Em “Timeless” existe-se um tom mais negro, em crescendo, com um tensão latente que “rebenta” pelas costuras quando atinge o seu apogeu.

Em 17 músicas, Blake deixa a sua alma e coração num álbum mais experimental, mais eletrónico, mais desenvolto no que toca às letras e às emoções que regem as nossas vidas. Extremamente pessoal, é evidente a vontade do inglês em querer transmitir mensagens de amor, tristeza, dor que acaba por passar, desejos para o futuro. Quase como se fosse um chef digno de estrelas Michelin, Blake soube dar a volta à receita que lhe deu sucesso, sem perder os traços originais ao mesmo tempo que renova o menu.

Provavelmente, para os menos atentos, este terceiro álbum é apenas mais um. Se calhar até aborrecido, repetitivo. Para os outros, a mudança. A evolução em termos de maturidade está presente em todos os momentos, sonoros e não. Olhando para a capa do disco vê-se uma mulher nua deitada em cima de uma árvore, escondida nas cores cinzentas. É a primeira indicação de que estamos perante um depoimento emocionante e sensível de alguém que quer compreender algo. Para nós, é o fim de uma relação. Em “Choose Me”, Blake canta “I don’t wanna run a ring past you / I’d rather you chose me every day / I’d rather you chose me” como alguém que desesperadamente quer um amor sublime na sua vida. Uma confissão imposta pelos sentimentos que precisam de ser extraídos do interior.

Esse coração quebrado é o centro deste terceiro trabalho que explora ainda mais a melancolia das músicas, deixando-as crescer mais do que qualquer coisa que fez antes.

Talvez não tenha singles tão cativantes como “Limit To Your Love” ou “Life Around Here” mas The Colour In Anything não perde nenhum brilho por causa disso. Não precisa de ter um chamariz para expor a beleza. Tendo que destacar algo, terá de ser “I Need A Forest Fire”, em que Blake une forças com Justin Vernon para uma faixa soberba, envolta numa batida lenta e sintetizadores em loop, em que as duas vozes combinam perfeitamente numa amor pelos falsetes. Se esta parceria se mantiver nos anos que aí vêm, podemos esperar algo de excecional.

É em The Colour In Anything que se confirma de uma vez por todas que James Blake tem uma capacidade assombrosa de fazer músicas que chegam ao nosso coração. Ele não engana ninguém nem cria expetativas irrealistas. Afinal, as cores também são emoções e estão ali, à nossa frente.