Beyonce pôs tudo em pratos limpos e alguém está em apuros.
Vamos começar pelo óbvio.
Musicalmente, Lemonade não é um grande álbum. As músicas não têm uma força enorme por trás, suficiente para ultrapassar uma Rhianna por exemplo, nem tão pouco existe uma variedade de estilos, arranjos, inovações que façam olhar para este álbum com olhos diferentes dos trabalhos prévios. Isto falando do que toca à música em si.
Agora, como projeto conceptual, está próximo do fenomenal. Pela primeira vez na carreira de Beyonce, lança um álbum verdadeiramente intimista, repleto de referências, analogias, ameaças, declarações chocantes sobre a sua vida pessoal. Todos os segredos são colocados em cima da mesa. Este Lemonade é o culminar de um longo percurso que Bey palmilhou ao assumir-se como a porta-voz do discurso feminista e empowerment para as mulheres pelo mundo fora (lembram-se “Run The World”?), da consciência política ou da busca por uma América mais justa para todos.
Desde que “Formation” se estreou na SuperBowl do ano passado que alguns críticos viram em Beyonce algo que nunca tinham visto antes: um realidade dura expressa em palavras camufladas pelas sonoridades pop e RnB. Pouco tempo depois da atuação, meio mundo falava da mensagem política que a artista estava a colocar nas canções, numa altura em que a corrida presidencial norte-americana já decorria a passos largos e os movimentos sociais ganhavam força nas ruas das grandes cidades. A conversa passou a ter um novo interveniente que parecia ter muito para dizer.
Com Lemonade, ficou tudo mais claro. Afinal ela realmente tinha muito para nos contar.
Como estamos a falar de Beyonce, existia um sentimento de que o quer que seja que viesse, ia ser feito de um modo sublime e não nos enganámos.
Com uma qualidade fenomenal, a cantora transformou os conceitos de criação, promoção e distribuição de música nos tempos atuais, unindo-os debaixo de uma única voz, provando de uma vez por todas que a imagem, marketing e a música vendem-se ao conjunto. É esse o caminho para o sucesso.
É evidente que o conteúdo também tem de ser apelativo e nesse aspeto este novo trabalho da cantora tem o condão de ser o mais atraente desde o I Am/ Sasha Fierce. As primeiras quatro músicas do álbum revelam muito mais do que poderíamos imaginar sobre a vida de Beyonce.
Parece que a relação com Jay-Z não está nas melhores condições… Bem, quem queremos enganar? Está tudo lixado. Os rumores de infidelidade do rapper que se propagaram ao longo dos anos materializaram-se pela voz da mulher que não o perdoa. “This is your final warning / You know I give you life / If you try this shit again / You gon’ lose your wife”, ouve-se em “Don’t Hurt Yourself”. Em “Hold Up” a cantora não está com rodeios – “Going through your call list / I don’t wanna lose my pride, but I’ma fuck me up a bitch” – e dá o mote para aquele que pode ser considerado o maior ataque ao rapper de Brooklyn. Curiosamente, vindo da mulher.
Ao longo do disco, está presente o derrame de sangue que o coração de Beyonce tem sofrido nos últimos anos com os problemas matrimoniais e a falta de confiança e lealdade de Jay-Z, o que o torna extremamente apelativo para os fãs que ficam a conhecer muito do lado pessoal da artista. Pelo meio da dor e da raiva, ainda há espaço para a esperança como se ouve em “Freedom” – ““A winner don’t quit on themselves” – que conta com versos de Kendrick Lamar. Para o fim fica reservado “Formation”, mais mediático pelo vídeo do que pela música graças à defesa que faz do movimento Black Lives Matter.
Lançado de surpresa, com um especial de hora e meia na HBO, Lemonade é a representação do quadro artístico que um grande artista deve ter em conta quando quer lançar um projeto desta magnitude. A interligação das diferentes áreas e plataformas é excepcional. Não é para todos. É preciso dinheiro, uma estrutura muito bem montada, equipas criativas, qualidade musical e um grande par de tomates. Mais uma vez, não é para todos. No fim do dia, não são as letras ou a música em si que vai estar em debate. O que se vai falar nas redes sociais é quem a “Becky with the good hair”, se Jay-Z já saiu da casa de banho onde se trancou com medo e da qualidade criativa que Beyonce conseguiu juntar para um único álbum.
Nesse aspeto, Lemonade leva o prémio do ano como melhor álbum conceptual. Dificilmente irá conseguir superar o os altos e baixos da vida de Beyonce e do modo como colocou as emoções neste disco.alguém vai conseguir derrotar a Queen B.