A subvalorizada arte da edição numa cultura de excessos.
Ela é uma intelectual diletante, que se perde em pensamentos abstratos e imagina cenários catastróficos antes de entrar em palco. Ele é calmo, pragmático, a mão que a segura à terra. Ela chama-se Victoria Legrand, ele Alex Scally, e juntos arquitectaram em Baltimore os Beach House, uma das mais sólidas bandas do universo indie dos últimos anos. Mas mais do que isso: do equilíbrio entre Victoria e Alex nasceu em 2012 Bloom, um dos melhores álbuns do novo milénio.
Três anos depois de deixarem a sua marca indelével no mundo da música, os Beach House decidiram que 2015 seria o ano de voltar à alta roda. Mas o que tinham para apresentar era muito mais do que os fãs esperavam. Como se um álbum de originais não chegasse, previdentemente prepararam-nos dois. E assim, quando os melómanos do mundo ainda se habituavam a Depression Cherry tiveram de desviar as atenções para Thank Your Lucky Stars.
Ao todo são 18 músicas novas em menos de dois meses, e quem pensa que Thank Your Lucky Stars é uma espécie de álbum de lados B ou um complemento de Depression Cherry desengane-se. São dois álbuns independentes, gravados em simultâneo, mas com as músicas de Thank Your Lucky Stars a serem escritas posteriormente às de Depression Cherry. O argumento é que as músicas pertencem a universos temáticos diferentes, o que justifica que sejam apresentadas separadamente. Mas depois de ouvir ambos os álbuns um bom número de vezes tenho muitas reservas em atribuir algum mérito a esse argumento.
Mas deixemo-nos de rodeios e vamos à vaca fria: precisamos de dois álbuns dos Beach House num ano? Não, não precisamos. E há dois grandes argumentos para que a resposta seja esta. Por um lado, para quê apresentar dois álbuns bons, quando temos um excelente a olhar para nós? Por outro lado, a música dos Beach House não é propriamente fácil e precisa de tempo para ser ouvida e para que os laços surjam, o que não é compatível com a ideia de soterrar os fãs em 18 músicas.
Curiosamente, quando comecei a ouvir os álbuns, Depression Cherry pareceu-me ser claramente o melhor, mas aos poucos apercebi-me que estava enganado e que Thank Your Lucky Stars ia aos poucos revelando encantos mais discretos mas mais sedutores. Pondo-os numa peneira de qualidade restariam 12 músicas que formariam um sucessor digno de Bloom. E no alinhamento desse álbum imaginário estariam “Levitation”, “Sparks”, “Space Song”, “Beyond Love” e “PPP” de Depression Cherry, e “Majorette”, “She’s So Lonely”, “All Your Yeahs”, “One Thing”, “The Traveler” “Elegy To The Void” e “Rough Song” de Thank Your Lucky Stars.
“Levitation” abre Depression Cherry de forma apoteótica, com almas levitantes rendidas a uma absoluta entrega ao amor. Um hino de contenção sonora, num ambiente etéreo habitado por backing vocals cirúrgicos, uma beat box discretíssima e rasgos melancólicos no refrão, com a voz de Victoria a eternizar-se em ecos. E o profundo desejo de acreditar no amor agarra Depression Cherry pelos colarinhos em “PPP”, uma espiral onírica de guitarra que nos proporciona momentos de profunda perfeição.
As músicas de Thank Your Lucky Stars são mais baças, como se alguém tivesse um momento à João César Monteiro e colocasse um casaco sobre o microfone. “Rough Song” é talvez uma excepção. E é também um paradoxo, porque chamar rough a uma música tão delicada, que quase parece uma cantilena infantil, soa a heresia. O refrão é de uma suavidade apaixonante, como o é a forma quase mística com que Virginia no final repete “I need to leave it”. E esse ambiente sedoso é o mesmo que encontramos em “The Traveler”, com uma influência meio anos 70, que nos hipnotiza com a evolução inquietante da melodia e um órgão cheio de personalidade, enquanto Virginia nos convence que “for a vision of the night turn off your light”.
Mas a verdade é que o grande momento, aquele em que sentimos a respiração ficar presa, os pêlos dos braços a eriçarem-se e o coração a ficar apertado, é em Depression Cherry que o encontramos. “Beyond Love” é ridiculamente perfeita, desde os riffs de guitarra à beat box, em erupções contínuas de melancolia de quem não se consegue desprender dos desgostos e acredita que talvez não mereça ser feliz.
Das gigantes canções de amor de que Victoria falava em entrevista ao Pitchfork há bons exemplos em Depression Cherry e Thank Your Lucky Stars. Faltou foi a capacidade dos Beach House perceberem que o processo criativo não termina na criação. É preciso editar, é preciso deitar coisas fora. Até os diamantes precisam de ser lapidados.