A música, nesta semana, há precisamente dez anos
Todas as semanas, a página de Facebook do blogue Dez Anos é Muito Tempo vira página de nostalgia, principalmente para todos os que nasceram em 1980 e troca o passo. Notícias, concertos, discos, canções e citações com uma década em cima preenchem um mural de lamentações.
Notícias/concertos
“Crazy” dos Gnarls Barkley fez história e tornou-se no primeiro single a atingir o número 1 existindo apenas em formato digital.
O Festival Heineken Paredes de Coura confirmava os Bauhaus na mesma semana em que John Butler Trio atuava na Aula Magna e os Sisters of Mercy no Coliseu dos Recreios. Boss AC também sobiu ao palco do Coliseu, mas vale a pena acrescentar que foi um momento de consagração, na sequência do sucesso de Hip Hop (Sou eu e és tu).
Discos
You think you’re so radical, I think you ought to stop (say what?)
But you’re going international, they’re going to call the cops (no, no, no)
You’re turning into a poor man’s Donald Trump
I know those circumstances make you want to jump Oh no
Há algo de profético nas palavras de “Free Radicals”, segunda canção do 11º álbum dos The Flaming Lips. É um pormenor que diz muito em relação à pose da banda de Wayne Coyne. A bizarria e o nonsense com que tratam questões profundas não é para ser levado à letra. Em termos práticos, pode tornar-se inócuo apelidar os The Flaming Lips de banda psicadélica. São muito mais do que isso. O grupo criou uma identidade própria assente na sua imprevisibilidade, com bons ou maus resultados. Este At War With The Mystics (sim, título e disco de sensibilidade política) está do lado dos bons.
Com as óbvias diferenças, a carreira a solo de Morrissey pode ser comparada à de Frank Black: discografia homogénea, muitos furos abaixo das bandas que os transformaram em lendas vivas, respetivamente os Smiths e os Pixies. Outra comparação arriscada: a partir de You Are the Quarry (disco de 2004, o regresso sete anos depois de Maladjusted), Morrissey começou a parecer um Woody Allen da música, gravando em cidades diferentes, com resultados relativamente pobres. A este Ringleader of the Tormentors faltam momentos que o distingam, como a bela “Dear God Please Help Me”, canção que resume um álbum existencial, mas nem por isso essencial. Regressando a Woody Allen, à imagem do filme italiano do cineasta, as referências (Roma, Pasolini, Piazza Cavour, Visconti, Magnani) são fáceis, comuns. Resumindo: cliché. A Itália que o incendiário ex-Smiths trouxe para aqui é turística, universal. Mas, mais importante do que tudo isto, o oitavo álbum de estúdio confirmava que Morrissey estava de volta e fazia questão que o notássemos: da recusa em dar concertos no Canadá às críticas aos Arctic Monkeys, a atenção mediática estava lá. O vegetariano mais célebre do mundo estava de volta.
Depois dos Humanos, os Revistados. Revistados 25-06 foi uma abordagem pouco convencional ao legado dos GNR, desde “Portugal na CEE”. Foi uma celebração dos 25 anos da banda de Rui Reininho e a ideia cresceu a partir da partilha de uma ideia de Rui Miguel Abreu (na altura na Loop Recordings) e Paulo Junqueiro (A&R Nacional da EMI). Essa ideia partia do pressuposto de que vários músicos nacionais ligados ao hip hop português tinham os GNR como referência. A premissa materializou-se neste registo entre o rap, a soul, o dub e o reggae que teve em “Popless” a canção mais abrangente. O single ainda gozou de algum airplay.