A música, nesta semana, há precisamente dez anos.
Todas as semanas, a página de Facebook do blogue Dez Anos é Muito Tempo vira página de nostalgia, principalmente para todos os que nasceram em 1980 e troca o passo. Notícias, concertos, discos, canções e citações com uma década em cima preenchem um mural de lamentações.
Discos
A história tem tendência a repetir-se. Há coisa de um mês, escrevi sobre Blackstar, o derradeiro disco de David Bowie, referindo que era uma obra ímpar na história da industria fonográfica, um puzzle, um testamento, o enterro da derradeira personagem de Bowie – o próprio. A minha ignorância levou-me a supor que nunca um artista tinha feito algo assim. Mentira. Corrijo-o agora: J Dilla fez algo muito similar em fevereiro de 2006. Tal como Bowie, editou este Donuts praticamente no dia do seu aniversário e, apenas três dias depois, deixa-nos de forma surpreendente. Diagnóstico: nefrite lúpica e púrpura trombocitopénica trombótica. Terá sido no hospital, algures no verão de 2005, que criou quase tudo o que se passa em Donuts.
Ao contrário de Bowie, Dilla tornou-se mais conhecido morto do que em vida, tornou-se num dos artistas mais influentes do século XXI. Basta olhar para a crítica da Pitchfork na altura em que o disco foi editado – pontuação: 7,9. Olhemos, depois, para a crítica de 2013: um perfeito 10. E esse é um dos grande temas do álbum, a falta de reconhecimento crítico e comercial. O músico terá indicado que colocou mensagens entre as letras e os samples. Conseguimos sugerir algumas:
– Dionne Warwick – “You’re Gonna Need Me” – em “Stop”, em relação à sua ausência;
– Gene & Jerry – “You Just Can’t Win” – em “Glazed”, relativamente à luta contra o cancro;
– L V Johnson – “I Don’t Really Care” – em “Airworks”, alusão à sua subvalorização;
– Smokey Robinson & the Miracles – “A Legend In Its Own Time” – em “One Eleven”, registo claramente sarcástico;
– The Escorts – “I Can’t Stand (To See You Cry)” – em “Don’t Cry”, alusão à sua morte.
Os Donuts a que o título se refere serão os vinis. Aqueles que sampla ao longo destas 31 faixas e os objetos que marcaram a sua obra, a sua vida. Discos soul, hip hop, rock, psicadélicos, bollyhood e de compositores clássicos. Um mundo de referências que só encontrará paralelo em Madlib. A capa dá-nos um J Dilla com um sorriso e, aparentemente, a fazer aquilo que mais gostava: a comer Donuts, como no vídeo de “Last Donut Of The Night”. Refere-se aos vinis, claro. Clássico.
Na mesma semana, estrearam-se os She Wants Revenge. Há dias provocava, numa partilha de Facebook: “E quando todas as bandas imitavam os Joy Division? Isso era 2006”. Já tínhamos os Interpol, os Editors, entre outras menos celebradas. Às tantas, já nem percebíamos se estavam a imitar a banda de Ian Curtis ou os Interpol. No caso dos She Wants Revenge, é fácil: títulos como “Tear You Apart” e “Out of Control” são referências óbvias. O disco? A partir da terceira, quarta faixa entra na monotonia.
É curioso que os She Wants Revenge tenham fugido do sol da Califórnia para se refugiarem no som negro de Manchester. O percurso dos Belle & Sebastian, que editaram The Life Persuit na mesma semana, é contrário: fugiram do frio escocês para gravar em Los Angeles, no sol dessa mesma Califórnia. Os escoceses superavam aqui a partida de Stuart David e Isobel Campbell com distinção. Magnífico disco pop.
Frases
David Guilmour dá a machadada final nos rumores sobre uma eventual reunião dos Pink Floyd: “A banda? Acabou. A reunião aconteceu por uma boa causa, para passarmos por cima das nossas más relações e não para nos virmos a arrepender”. Os contemporâneos The Who anunciavam através de Pete Townshend: “haverá um novo álbum no início do verão.”