A música, nesta semana, há precisamente dez anos
Todas as semanas, a página de Facebook do blogue Dez Anos é Muito Tempo vira página de nostalgia, principalmente para todos os que nasceram em 1980 e troca o passo. Notícias, concertos, discos, canções e citações com uma década em cima preenchem um mural de lamentações.
Notícias/Concertos
O Super Bock Super Rock confirmou Franz Ferdinand e Pharrel Williams e o Rock In Rio anunciou Jamiroquai. Black Sabbath, Blondie, Miles Davis, Lynyrd Skynyrd e Sex Pistols entraram no Rock and Roll Hall of Fame. Los Hermanos atuaram em Viseu e Famalicão e Ursula Rucker apenas em Famalicão.
Discos
Comecemos por cá, por Quando a Alma Não é Pequena Vol. 2 dos Dead Combo. Era o segundo disco do duo e recordo-me de uma entrevista num então muito diferente Curto Circuito. Um dos apresentadores (não me recordo qual) perguntava: “Depois da estreia, o que mudou?”. A resposta: “Estamos ricos”. Sim, há um sarcasmo inerente à resposta de Tó Trips, mas a verdade é que, dez anos depois, os Dead Combo são um daquelas bandas nacionais que podem dedicar boa parte da sua atividade profissional à banda que, entretanto, correu o país e o mundo. O vasto leque de convidados não esconde alguma ambição na hora de cozinhar um disco que explora ambientes jazz e western, mas também a tradição portuguesa.
3121, o 31º disco de estúdio de Prince. Veio depois de Musicology e sucedeu à irrelevância dos anos 90, a década em que o perdemos. Não foi em 2006 que recuperámos Prince, mas já se notavam sinais de recuperação. Primeiro o que o atirava para trás dos outros todos: o ódio à Internet – ainda hoje não conseguimos ouvir 3121 em lado nenhum. A custo, lá encontrei a única faixa do disco de que me lembrava, “Black Sweat”, canção que tem muito de inspiração Timbalandiana. Viveu mais das manobras de marketing – um número limitado de “Purple Tickets” que vinham com o álbum (os vencedores tinham a oportunidade de assistir a um concerto privado na casa do músico, em Los Angeles) e uma intensa discussão acerca do significado do título (uma morada, uma referência ao nº de discos de originais combinado com a data de edição – 21 de março -, um versículo bíblico?) – do que propriamente da música.
A estreia dos Band of Horses, a banda que surgiu do enterro dos Carissa’s Wierd. E este Everything All the Time é o álbum de “Funeral”, canção da vida de muita gente. O tom emocional levou muita gente a comparações óbvias com os My Morning Jacket, mas não foi este disco que definiu a personalidade dos Band of Horses, essa foi sendo construida a cada novo disco. Mas é mais uma prova que, por 2006, a folk continuava em crescendo e em ambicioso plano de dominação global.
Both Sides of the Gun, disco duplo de Ben Harper. De um lado a melancolia, um registo acústico, perto do ouvido de quem o escuta. Do outro, um álbum elétrico, suado, de rock sulista. Ben Harper resulta melhor enquanto cantor confessional, mas a ambiciosa edição resultou na medida em que não tinha tempo para chatear. Ben Harper, de forma inteligente, apresentava dois discos, sim, mas ambos curtos, de cerca de meia hora. Dez anos depois, uma surpresa: envelheceu bem.
Resumindo: quatro discos a que, dez anos depois, vale a pena dar atenção. Vá, três, pois o de Prince está difícil encontrar.
Citações
Só viria a ser concretizada em 2015, mas em 2006 já se falava de Miles Away, a biopic de Miles Davis: “Poderá tocar nas várias formas que ele encontrou para mudar a música, ao longo de várias décadas. Do bebop ao hip hop”, dizia Vince Wilburn, sobrinho de Miles.