Qualquer um pode ser DJ?
Vi recentemente We Are Your Friends. O filme conta com Zac Efron e Emily Ratajkowski (que é conhecida por ter participado no videoclipe de “Blurred Lines”, de Robin Thicke), entre outros, e é uma espécie de viagem aos bastidores dos meandros da Eletronic Dance Music (EDM).
Se não me engano este é o primeiro grande filme sobre a EDM no seu estado atual, pondo de parte os documentários e resumos do Tomorrowland. As curtas participações de DJs conhecidos como Alesso, Dillon Francis ou Nicky Romero, a narrativa pós-teen de descoberta da vida e as tentativas de alcançar os sonhos, associadas a uma cinematografia inspirada em videoclipes, dão ao filme uma estética atraente, capaz de seduzir os que um dia sonharam com passar música numa festa em casa de um amigo.
Explorando as particularidades da música de dança atual, We Are Your Friends tem o condão de tornar este estilo – cada vez mais irritante – em algo mais acessível e até criativo no que toca à produção e ao trabalho ao vivo. É provável que a maior parte de nós veja um DJ como um transmissor de músicas que tem de saber escolher uma playlist, misturá-la, acertar tempos e fazer com que tudo soe como uma interminável faixa que mantém toda a gente a sorrir e a dançar. Não é um músico, diz-se por aí.
A verdade é subjetiva. Se considerarmos David Bowie, Dave Grohl ou Ennio Morricone como músicos, então teremos dificuldade em aceitar que uma pessoa que carrega em botões e roda manípulos tenha o mesmo estatuto. Afinal, tocar vários instrumentos, escrever letras pessoais que se tornam hinos mundiais e construir álbuns de raiz, da composição à produção, é algo extremamente complexo. Por outro lado, o filme alarga os horizontes de quem vê a música eletrónica como um estilo que deve ter o seu mérito para além de fazer parte de todas as playlists irritantes das rádios teen.
Num dos momentos mais interessantes do filme, a personagem de Efron explica como funciona a ligação entre os BPM’s da EDM e o ritmo cardíaco. Para mim, que sempre me questionei porque raio bato o pé em ritmo quando ouço “One” dos Swedish House Mafia, foi uma surpresa.
Filosofia de bolso ou não, a explicação parece-me credível. OK, talvez demasiado pensada, mas não menos verdadeira por causa disso. Se realmente existe uma ciência por detrás dos bips e bops de uma aparelhagem, algo que temos de ser capazes de manipular ao vivo de modo a ter um efeito prático, então nesse caso não poderemos considerar isso como o trabalho de um músico quando está a tocar ao vivo?
Certo, estamos cansados de ouvir o mesmo género de música eletrónica que se fixou nas gerações mais jovens que enchem o Sudoeste. Isso não deve ser motivo para considerarmos algo como mau. Se calhar deveríamos ter mais conhecimento sobre o estilo e como se constrói. A perceção com que fiquei é que a nova música eletrónica tem muito que se lhe diga – e certamente não é apenas algo irritante que toca na rádio ou igual em qualquer discoteca. Existe algo mais. Nesse aspeto, We Are Your Friends faz um bom trabalho. Abre horizontes.
Agora, com isso vão ser capazes de se tornarem DJs da noite para o dia? Talvez não. Mas talvez vos deixe o bichinho de querer perceber pelo menos como é que se faz uma passagem. Experimentem. Sem medos. É só isso que se pede.