As histórias de uma vida afinal cabem num EP.
Nunca é tarde para se olhar para o passado. Por isso, ainda não perdi a carruagem para falar de Serendipity, o mundo urbano cheio de ritmos sintetizados de Isaura. Foi com “Useless” que a artista portuguesa começou a dar que falar nas redes sociais e rapidamente surgiu um buzz sobre de quem seria esta voz que reflete uma tendência pop eletrónica tão apelativa como aquela em que os The xx sabem construir tão bem.
Em poucos meses, “Useless” transformou-se num cartão de visita obrigatório para conhecer Isaura. Não aquela rapariga que concorreu à Operação Triunfo. Uma outra: mais madura, paciente, apelativa, original. Fugindo às obrigatoriedades habituais deste género de concursos televisivos, a verdadeira essência da artista que hoje se apresenta demorou a aparecer. Afinal, Isaura participou na edição de 2010, esteve dois anos “desaparecida” do radar a produzir música que nunca a satisfez completamente e agora arranca numa digressão nacional ao lado de Francis Dale. É como aquele provérbio popular: “A paciência é a chave da alegria; a precipitação, a do arrependimento”.
Já este ano lançou Serendipity, um EP com o selo da curadoria NOS Discos e que contou com a parceria entre o Tradiio e a Universal Music Portugal. Calmamente, o trabalho foi ganhando cada vez mais força – mais uma vez, graças às redes sociais que hoje em dia são uma base essencial para qualquer artista – espelhando uma realidade urbana traduzida em letras de amor, desilusão, ansiedade, procura de um futuro melhor, cantadas por uma voz melancólica que emana as emoções de uma juventude portuguesa, por vezes perdida, outras vezes indecisa. O vídeo de “Useless” revelou um dos intuitos de Isaura: deixar que a sua música fale por si. Representada pela dança de Kelly Nakamura, o videoclipe é uma montra daquilo que a jovem portuguesa quer alcançar com Serendipity. Já sem estar debaixo dos holofotes da Operação Triunfo, Isaura deu tempo a si mesma para hoje saber muito bem o que quer fazer, como e quem a pode ajudar. Afinal, hoje em dia a música já não é estar fechado num quarto a escrever letras e a experimentar acordes. É muito mais que isso. É uma indústria.
Essa noção da realidade deu a Isaura a visão necessária para se reinventar dos concursos de karaoke. Com o apoio das pessoas certas, uma imagem que lhe assenta na pele, uma voz quente e uns sintetizadores, a jovem construiu o seu mundo que cresce todos os dias pelo meio de uma sonoridade pop. Como a própria refere na sua página do NOS Discos, Serendipity “é a plena consciência de que não estamos sozinhos. Não vivemos isolados, não alcançamos as coisas de forma individualista, não conquistamos nada sem uma equipa que lute e se alegre ao nosso lado”.
Esta ideia está espelhada nas músicas do EP com “Change It” a assumir o seu ponto mais alto ao refletir uma sociedade descontente com o momento atual, algo com que provavelmente todos nós nos podemos identificar. Em “Change It” e “Dancefloor” fala-se de despedidas, momentos de tristeza que nos quebram mais cedo ou mais tarde. No fundo, o EP é uma representação honesta do mundo em que vivemos e isso dá um outro encanto ao que ouvimos. Para uma jovem que poderia ter seguido um caminho mais pré-estabelecido, é com curiosidade que noto que Isaura soube dar tempo ao tempo e por si, descobrir de que modo é que sua alma e o seu coração poderiam ter uma expressão. Existe um claro período de crescimento interior que se traduz nas emoções latentes de Serendipity.
Em pouco tempo, Isaura já faz parte de uma geração inovadora de artistas que têm vindo a transformar a música nacional com um leque de novas ideias capazes de convencer até o mais cético português.