Ao oitavo álbum como Mount Eerie, Phil Elverum compôs o disco mais desolador da sua longa carreira
A vida de Phil Elverum teve uma enorme reviravolta em julho do ano passado. Ao nono dia do mês em questão, o fundador dos Microphones ficou viúvo de Geneviève Castrée, depois de uma curta, mas dura, batalha com um cancro pancreático. Tal como o marido, Castrée foi uma artista durante toda a sua vida: não só editou vários álbuns de folk experimental (participando também em alguns dos trabalhos de Elverum), como teve também uma prolífica carreira como ilustradora. Geneviève deixou para trás um legado artístico acima da média e uma filha com apenas 2 anos de idade. Faleceu, demasiado cedo, aos 35 anos.
É bastante fácil concluir que os últimos meses têm sido bastante dolorosos para o artista norte-americano. Uma das linhas que Elverum mais usa no novo álbum é “death is real”, sendo até a primeira afirmação que proclama no início da primeira faixa do disco, Real Death. Elverum já tinha escrito músicas sobre a morte e a efemeridade da vida (há até uma canção dos Microphones que dá pelo nome de “I Can’t Believe You Actually Died”), mas desta vez ele encara estes temas de frente. Desta vez é a sério e compor e editar A Crow Looked at Me foi a maneira que Elverum encontrou para lidar com os acontecimentos trágicos.
Naturalmente, todo o disco gira à volta de Castrée. Não há nenhuma faixa em todo o álbum que não mencione a companheira de vida de Elverum. Na maior parte das ocasiões, Elverum não entra em rodeios e diz tudo o que tem a dizer de forma bastante direta. As subtilezas líricas são inexistentes e o canto quase-falado que está presente na maioria do disco juntado aos minuciosos detalhes do quotidiano pós-julho de 2016 de Elverum fazem até lembrar aquilo que Mark Kozelek tem feito nos últimos anos como Sun Kil Moon (às vezes de forma cativante, como em Benji, de outras vezes de forma aborrecida, como em Universal Themes). A sonoridade de A Crow Looked at Me é também bastante direta. Na verdade, as faixas acabam sempre por girar à volta da frágil voz de Elverum e do som aconchegante de uma guitarra acústica. A complexidade e experimentação de texturas sonoras bastante presentes na discografia do norte-americano estão completamente ausentes deste novo álbum (Elverum já explorou um pouco de tudo, incluíndo géneros como black metal ou drone). Bem longe está a baixa fidelidade de álbuns como The Glow Pt. 2. As faixas têm uma sonoridade extremamente limpa e a distorção das gravações encontra-se em níveis mínimos. Não quer isto dizer que as canções tenham tido um tratamento exagerado em pós-produção. As músicas presentes em A Crow Looked at Me mais parecem um conjunto de demos que Elverum tinha na gaveta. E atenção, não digo isto com uma conotação negativa. Em certos momentos, quase conseguimos ouvir tanto o ambiente do espaço onde o álbum foi gravado, como o manejar dos instrumentos e ferramentas musicais que Elverum usou durante as gravações. E todo esse processo está também intimamente ligado a Geneviève, visto que Elverum gravou todo o disco na mesma divisão onde a sua esposa faleceu e usou exclusivamente instrumentos dela (guitarra, baixo, amplificadores, até mesmo as suas palhetas de guitarra). Para além disso, a maior parte das faixas foram gravadas durante a noite, enquanto a sua filha dormia pacificamente na divisão ao lado, o que acaba por explicar a natureza frágil do resultado final. Numa entrevista dada à Pitchfork antes do lançamento do álbum, Elverum classificou as novas faixas como algo que “praticamente não é música”, afirmando que as canções de A Crow Looked at Me são apenas “ele a falar dela e da sua memória em voz alta”.
Para um artista que sempre se manteve bastante discreto quanto à sua vida pessoal ao longo das últimas duas décadas, a crua honestidade mostrada por Elverum ao longo do alinhamento de A Crow Looked at Me chega a ser ligeiramente assustadora. Não há nada que Elverum deixe por dizer nas 11 faixas que compõem o novo disco. Apesar de não faltarem álbuns recentes que giram à volta do tema da mortalidade (Blackstar de David Bowie e Skeleton Tree de Nick Cave vêm logo à memória), A Crow faz com que um disco como Carrie and Lowell passe como algo amigável e alegre. Elverum recusa-se constantemente a retirar qualquer conclusão positiva sobre o que aconteceu. No final de Real Death, ele afirma que tudo isto é “parvo” e que não quer aprender nada com a situação, reiterando o desejo de que só quer estar junto da esposa que tanto ama (“It’s dumb / And I don’t want to learn anything from this / I love you”). Na quarta faixa, Forest Fire, Elverum não consegue lidar com a nova realidade e discorda com as ações da natureza (“You do belong here / I reject nature, I disagree”). Na canção seguinte, Swims, o cantautor não consegue esquecer as últimas imagens que tem de Castrée:
I can’t get the image out of my head
Of when I held you right there
And watched you die
Upstairs in the back bedroom of our house
Where we have lived for many years
Your last gasping breaths
I see it again and again
As the breeze blew in
Na mesma faixa, Elverum referencia a pequena filha do casal, sendo que ela acaba por ser o último elo vivo que resta da sua relação com Castrée. De forma inocente, a criança pergunta ao pai se a mãe costuma nadar, ao que o pai responde que ela não deve fazer outra coisa para além disso, referindo-se ao facto de as cinzas de Castrée terem sido espalhadas a beira-mar (“Today our daughter asked me if mama swims / I told her, yes, she does / And that’s probably all she does now”).
A nona faixa do disco, Toothbrush / Trash, apresenta-nos um Elverum cabisbaixo que apercebe-se de que a imagem mental que tinha de Castrée está a ser lentamente substituída por uma nova versão baseada somente nas fotografias que estão espalhadas pela casa. Elverum interpreta qualquer som ou movimentação no espaço como uma possível chegada de Castrée, acabando as suas expectativas por saírem sempre defraudadas (“October wind blows / It makes a door close / I look over my shoulder to make sure / But there is nobody here”).
Duas das melhores faixas do álbum (se é que tal adjetivo pode ser aplicado neste caso) são Ravens e Crow. Ambas as canções (tal como o título do disco) giram à volta de um animal, o corvo, e Elverum explora o simbolismo deste e relaciona-o com o mundo que se está a desmoronar à sua volta. Ele observa dois corvos negros na paisagem e, apesar de ter noção que a presença e aparência destes apontam para algum presságio, Elverum não consegue perceber exatamente o significado do evento (isto apesar de o seu subconsciente automaticamente relacionar os corvos com a possível futura morte da sua mulher, até porque o corvo preto tem um simbolismo normalmente associado à morte). Enquanto contempla as aves, Elverum imagina a dor que Castrée estará a passar nesse e em todos os momentos.
I knew these birds were omens but of what I wasn’t sure
They were flying out toward the island where we hoped to move
You were probably inside
You were probably aching, wanting not to die
Your body transformed
I couldn’t bear to look so I turned my head west
Like an early death
Now I can only see you on the fridge in lifeless pictures
Apesar de ser apenas a terceira faixa de A Crow Looked at Me, Ravens é provavelmente a canção mais central do álbum. Com 6 minutos e 40 segundos de duração, esta é a faixa mais longa de todo o disco e, ao longo desta, Elverum acaba por percorrer vários espaços e períodos temporais, descrevendo momentos que vão desde os meses difíceis após a descoberta da doença de Castrée até aos primeiros passeios a dois com a filha, nas semanas que se seguiram depois da morte de Geneviève.
A última faixa do álbum, Crow, recupera a temática à volta dos corvos. Aqui, no entanto, dá-se uma reviravolta: ao contrário das restantes 10 faixas do disco, Elverum não se dirige diretamente a Castrée, mas sim à pequena filha de ambos. Ele questiona-se sobre o mundo aonde a filha vai crescer, um mundo aparentemente fascista e em lenta decadência (“Sweet kid, what is this world we’re giving you? / Smoldering and fascist with no mother”). Numa nota à parte, é curioso que nem num álbum como A Crow Looked at Me, que tem um tema central tão vincado, é esquecido o que se tem passado no espetro político nos últimos meses/anos. Mais à frente, Elverum descreve o passeio de novembro pelos bosques onde decorreram fogos florestais no passado verão e, de seguida, termina a faixa de maneira fantasmagórica: Elverum questiona a filha sobre o sonho que está a ter, depois de a ouvir murmurar sobre um corvo, concluindo o álbum com uma visão de Geneviève (“Sweet kid, we were watched and followed and I thought of Geneviève / Sweet kid, I heard you murmur in your sleep / “Crow,” you said, “Crow” / And I asked, “Are you dreaming about a crow?” / And there she was”). Não havendo a possibilidade de terminar o álbum com um final positivo, existe, pelo menos, uma mudança de perspetiva: sem nunca esquecer o passado, Elverum começa a olhar um pouco mais para o futuro dele e, essencialmente, da sua filha.
É impossível ouvir A Crow Looked at Me de ânimo leve. É definitivamente estranho alguém ser fã de um trabalho tão pessoal e imensamente desolador. Em condições normais, este álbum não deveria sequer existir, visto que toda a sua criação só aconteceu devido aos acontecimentos trágicos na vida de Phil Elverum. O problema é que a natureza da vida humana impede que as nossas vidas sejam guiadas por essas mesmas “condições normais”. O nosso percurso enquanto pessoas é tudo menos linear e quando menos esperamos, tudo pode mudar. Elverum e Castrée pareciam estar a viver os melhores tempos das suas vidas com o nascimento da sua filha e poucos meses depois receberam a notícia de que Castrée tinha sido diagnosticada com um cancro do pâncreas inoperável. Isso não invalida que este seja objetivamente um dos melhores discos que o norte-americano já lançou e é, talvez, o primeiro grande álbum de 2017 (isto é, um dos álbuns presentes nas listas dos melhores discos do ano). No entanto, avaliar quantitativamente/qualititativamente este disco soa a algo incrivelmente parvo e desrespeitoso. O conjunto destas 11 faixas equivalem a uma longa conversa que Elverum está a ter com a sua companheira de vida. Fazê-lo em modo de álbum foi a maneira mais convencional que ele encontrou para poder passar a mensagem a alguém que já não está fisicamente presente. Esse tipo de material artístico não precisa de qualquer tipo de validação de fãs, críticos ou de quem quer que seja. A música presente no disco faz transparecer um homem que está completamente partido não só em termos físicos, como em termos sentimentais. Um homem que continua tremendamente apaixonado. Um pai que está sozinho a criar uma filha com apenas 2 anos de idade. No fundo, um homem em completo sofrimento. E Elverum sempre foi alguém bastante misterioso e a sua música apresentou sempre um estilo melancólico e solitário, mas nunca em alguma altura o norte-americano se abriu emocionalmente como neste novo disco. Mas, de certa maneira, Elverum continua a necessitar do seu espaço e privacidade. No primeiro concerto que deu este ano, o primeiro após tudo o que se passou, Elverum pediu aos fãs para não comparecerem, para esperarem pelo momento certo e por uma tour nas condições ideais. Para além de estamos a falar de alguém, que só no caso extremo, divulgou publicamente o que se estava a passar (cerca de um mês antes do falecimento de Geneviève, Elverum anunciou a doença da esposa e pediu ajuda aos fãs para pagar os insuportáveis custos dos tratamentos hospitalares). Portanto, se este álbum (e consequente abertura emocional para com o mundo) existe, isso deve-se à extrema necessidade de Elverum em criar algo catártico que permita aliviar um pouco da dor existente. Como alguém que, felizmente, nunca passou por algo como Elverum tem passado nestes últimos meses, é impossível eu compreender em absoluto tudo aquilo pelo qual ele tem passado. Ouvir o álbum é, no entanto, uma experiência quase surreal, pois faz-nos descer à terra e perceber o quão frágeis são as nossas vidas e como as relações que temos com aqueles que adoramos podem desaparecer a qualquer momento. Como Elverum proclama no início do álbum (já em modo de aviso), a morte não é para ser cantada. É apenas real.