20 anos depois, uma análise sobre “Either/Or” e a carreira de Elliott Smith
É bastante justo afirmar que Steven Paul Smith, conhecido no meio artístico por Elliott Smith, nunca lançou um álbum cujas qualidades musicais tenham desapontado fãs ou críticos. Desde o início da década de 90 até ao início do novo século, Smith partilhou quase uma dezena de álbuns mas nenhum foi provavelmente tão marcante na sua carreira como acabou por ser o seu terceiro trabalho a solo: Either/Or.
Há cerca de 20 anos atrás, a 25 de fevereiro de 1997, saía o primeiro álbum de Smith depois de ter abandonado a banda que liderava desde ’91, os Heatmiser. Após ter conhecido Neil Gust durante a sua juventude, os dois jovens músicos criaram a banda quando voltaram a Portland (onde Smith viveu grande parte da sua vida) e decidiram partilhar a liderança da banda no que toca à composição lírica e musical das canções. Essa divisão de tarefas é bem visível quando olhamos para o alinhamento de cada um dos três álbuns de estúdio que os Heatmiser lançaram. Metade das canções tinham Gust como comandante vocal e a outra metade apresentava Elliott Smith como líder da banda. Quem ouvir o primeiro trabalho de estúdio do grupo, Dead Air de 1993, provavelmente vai ter alguma dificuldade em associar o nome Elliott Smith à sonoridade com que se depara. Por exemplo, a faixa de abertura do disco, Still, foi composta e cantada por Smith mas as texturas musicais da canção assemelham-se mais à sonoridade de bandas da cena indie da época, como é o caso dos Hüsker Dü ou dos Jawbox, do que com o estilo de cantautores clássicos aos quais Smith é normalmente comparado como Bob Dylan, Nick Drake ou a dupla Lennon/McCartney.
No entanto, ao avançarmos até final de 1996, altura em que os Heatmiser lançaram o seu terceiro e último álbum, Mic City Sons, se ouvirmos as canções compostas por Smith e as compararmos com o trabalho inicial da banda, é possível notar imediatamente uma mudança de estilo, onde a atitude punk anteriormente bastante presente é substituída pela subtileza e melancolia a que os fãs de Elliott Smith estão bem acostumados. As canções See You Later e, especialmente, Plainclothes Man poderiam perfeitamente estar incluídas num dos discos a solo de Smith, sem estarem fora do contexto desses trabalhos.
Claro que por esta altura, Smith já vinha a trabalhar na sua carreira a solo, pelo que esta mudança de sonoridade nos Heatmiser não foi propriamente surpreendente. Em ’96, Elliott já tinha lançado dois álbuns sem a sua banda: Roman Candle e Elliott Smith. Foi também no decorrer da preparação de Mic City Sons que Smith decidiu abandonar os Heatmiser e dedicar-se a 100% ao seu trabalho a solo. Os seus dois primeiros álbuns tinham sido relativamente bem recebidos e pouco tempo depois da sua banda ter assinado o seu primeiro grande contrato com a Virgin Records, Smith decidiu dar por terminada a sua participação nos Heatmiser.
Não demorou muito tempo até Smith lançar o seu primeiro trabalho depois de ter abandonado a banda e ao voltarmos a fevereiro de ’97, deparamo-nos com o lançamento de Either/Or. Apesar de não haver propriamente um álbum na sua discografia que tenha uma preferência esmagadora por parte dos fãs, existe uma espécie de consenso geral de que Either/Or é o disco que melhor representa aquilo que era Elliott Smith enquanto músico e jovem conturbado. De certa maneira, se alguém quiser começar a ouvir a música de Smith, Either/Or deverá ser o ponto de partida da sua discografia.
O trabalho a solo de Elliott Smith poderá ser dividido em duas partes: uma primeira metade que inclui os três primeiros álbuns já referidos e uma segunda metade que inclui os discos que Smith lançou até à sua morte em 2003. Either/Or apresenta Elliott no seu estado mais frágil e as gravações apresentam um nível de intimidade com o ouvinte que os álbuns seguintes já não conseguiram atingir. A iniciar o alinhamento do álbum encontra-se a faixa Speed Trials em que Smith começa por cantar de forma bastante delicada e confronta o problema de nos mantermos na zona de conforto: “There’s always something you come back running to / To follow the path of no resistance”. Para além disso, utiliza um jogo de palavras ao dar um duplo sentido ao título da música, pois o “Speed Trial” tanto se pode referir a julgamentos rápidos que costumam envolver crimes leves (que incluem consumo ou posse de droga) como ao uso de anfetaminas (conhecidas por “Speed”). Aliás, ambas estas características, o facto de Smith jogar com as palavras e referenciar os seus problemas de dependência, estão bastante presentes ao longo do álbum. Mas, por vezes, a sua conhecida subtileza lírica transforma-se num conjunto de versos relativamente óbvios, como é o caso da quarta faixa do álbum, Between The Bars. Aqui, Elliott aborda as dificuldades em lidar com o problema crónico do alcoolismo, transformando o álcool numa personagem sedutora que o incentiva a beber de maneira a que Smith possa esquecer todo o negativismo à volta da sua vida: “Drink up with me now and forget all about / The pressure of days, do what I say / And I’ll make you okay and drive them away / The images stuck in your head”.
Outro tema bastante dominante ao longo do alinhamento de Either/Or é a dificuldade em que Smith teve em lidar com a fama ao longo de toda a sua carreira. Essa questão está bastante patente em Pictures of Me onde Smith começa por sussurar alguns versos sobre a arte de fingir para os “media” mas à medida que se aproxima do primeiro refrão, ele levanta o volume e intensidade da sua voz de forma bastante inteligente, deixando de utilizar o canto em forma de sussurro que tanto está presente ao longo de todo o álbum. Smith afirma de forma muito convincente que aqueles que desejam a fama, não fazem ideia de como ela realmente funciona e de como esta muda as suas vidas. Mais importante que isso, Elliott está farto de que as máquinas da fama não lhe deêm a privacidade que ele tanto precisa e deturpem a sua verdadeira personalidade: “So sick and tired of all these pictures of me / Completely wrong / Totally wrong / I’m not surprised at all and really, why should I be? / (…) / Oh everybody’s dying just to get the disease”.
O que é curioso é que Smith provavelmente nem tinha noção de que todos esses problemas relacionados com a fama e reconhecimento só iriam piorar poucos meses depois do lançamento de Either/Or. O álbum foi extremamente bem recebido pelos críticos da altura e o número de fãs foi começando a aumentar exponencialmente. Um admirador particular das suas qualidades foi o realizador Gus Van Sant. Por volta da altura em que Either/Or foi lançado, o americano estava a trabalhar no filme Good Will Hunting (O Bom Rebelde, em português). Van Sant gostou tanto do novo álbum de Smith que decidiu incluir várias canções do disco na banda sonora da longa-metragem. Uma das músicas incluídas foi uma canção gravada nas sessões de Either/Or, mas que acabou por ficar de fora da versão final, chamada Miss Misery. Nesta faixa, Smith aborda exatamente os mesmos problemas que estão presentes no álbum que tinha lançado recentemente e, apesar do que foi dito na altura, a música não foi gravada de propósito para o filme (uma versão anterior está presente no póstumo álbum, New Moon). É apenas mais uma bonita composição biográfica a juntar-se a um já robusto conjunto de canções criadas por Smith. Depois do enorme sucesso do filme, não foi apenas a equipa cinematográfica a ser recompensada pelo bom trabalho. Miss Misery foi uma das cinco nomeações para o Óscar de melhor canção original, no início de 1998. Na sequência dessa nomeação, Smith viu-se “obrigado” a tocar a música na cerimónia de entrega dos prémios, visto que a Academia avisou Elliott e os seus representantes de que a música iria ter direito a uma performance ao vivo, quer fosse com ele ou com quaisquer outros músicos contratados. Isto gerou uma das atuações mais estranhas alguma vez realizadas numa grande cerimónia que fosse transmitida por televisão. Durante dois minutos e meio, todo o mundo tinha os olhos postos em Elliott Smith e, apesar da atuação ter sido bastante rápida, esses minutos devem ter sido os mais longos da sua vida.
Miss Misery acabou por não ganhar o galardão de melhor canção original (Titanic “limpou” os Óscares desse ano e esta categoria não foi exceção) mas toda a atenção que recebeu fez certamente mudar a carreira de Smith. Either/Or acabou por ser o seu último álbum a solo a ser lançado numa editora independente e depois do relativo sucesso de Miss Misery, Elliott assinou um contrato com uma “major label”. Os álbuns que sucederam a Either/Or, apesar de excelentes, já não captaram a frágil sonoridade que os trabalhos anteriores tinham. Algumas das faixas quase parecem ter sido gravadas no conforto (ou desconforto, se pensarmos na temática da maioria dos versos que compôs) do seu quarto, enquanto que muitas das canções posteriormente lançadas já soavam a trabalhos profissionais de estúdio. Numa altura em que o pós-grunge dominava quase por completo o panorama rock e o próprio mundo do rock alternativo parecia começar a colapsar (em particular, depois da morte de Kurt Cobain), Either/Or soava (e ainda soa) a uma lufada de ar fresco. Apesar das temáticas líricas de Smith não estarem muito longe daquelas que estavam na moda, ele conseguia transmitir as suas emoções e dificuldades com uma extraordinária honestidade, algo que os atos do pop/rock mainstream da época não conseguiam fazer com sucesso. Muita da música feita no período pós-grunge “vendia sofrimento” para as massas em vez de tentarem transmitir sentimentos reais e genuínos. Elliott Smith conseguiu distanciar-se de toda essa tendência e apresentou um conjunto de canções afetuosas que permitia ao ouvinte confiar nos seus segredos e confidências.
Apesar de todo o álbum ser uma representação artística das suas dificuldades pessoais, Either/Or termina de forma extraordinária, com Smith a apresentar um tom bem mais otimista do que nas outras canções do álbum. Say Yes é provavelmente uma das músicas mais bonitas que Elliott Smith alguma vez compôs na sua vida. Não só é uma canção que romantiza os seus sentimentos por alguém especial, alguém que é diferente de todas as outras raparigas com as quais ele já tinha estado (“I’m in love with the world through the eyes of a girl / Who’s still around the morning after”), como também mostra Smith a ter algum amor próprio ao afirmar que se sente mudado e com capacidade de ultrapassar quaisquer obstáculos (” But now I feel changed around and instead falling down / I’m standing up the morning after”).
Either/Or é um excelente álbum que não só representa um marco na carreira de Elliott Smith, demonstrando que ele era um dos melhores cantautores da sua geração, mas que acabou também por influenciar o trabalho de futuros intérpretes dentro da cena indie folk. Artistas como Sufjan Stevens, Sharon Van Etten ou Julien Baker são excelentes exemplos de como o legado de Smith é rico e duradouro e as suas performances únicas, frágeis mas intensas e autênticas, nunca serão esquecidas.