Que não as que compõem a obra-prima The Downward Spiral, obviamente.
Vamos lá começar por deixar uma coisa bem clara. Desde logo, eu não acredito no conceito de melhor ou melhores bandas de sempre. Chamem-me cético, homem de pouca fé, o que quiserem. É assim que eu sou, e não vou mudar só por causa de uma opinião que eu próprio imaginei que vocês poderão eventualmente ter. Ainda assim, admitamos que fosse possível conceber tal tabela classificativa. Estamos todos de acordo quanto ao facto de que os Nine Inch Nails ocupariam obrigatoriamente um dos lugares cimeiros da mesma, certo? Certo. Muito bem.
Ora, aquilo a que eu me propus foi, então, apurar as esculturas sonoras que Trent Reznor melhor talhou enquanto dono e senhor dos Nine Inch Nails (ou seja, deixei How to Destroy Angels, bandas sonoras assinadas a meias com o Atticus Ross e quejandos na borda do prato). Como qualquer um dos 14 temas que compõem o alinhamento da obra-prima de 1994 The Downward Spiral se afigura logo à partida como uma escolha óbvia para tal seleção, resolvi partir em busca de outras 14 canções dos Nine Inch Nails dignas de tamanha distinção.
Vamos a isto, sem qualquer critério de ordenação.
1. “Everything”
Afugentemos de imediato o elefante da sala: sim, as minhas escolhas abrangem toda a carreira da banda; mas não, não trarei à liça amostras de todas as suas edições discográficas. Arranco então com “Everything”, única representante dos Nine Inch Nails pós-hiato. Lembro-me de ter achado, quando ouvi Hesitation Marks (2013) pela primeira vez, que esta canção cumpre o mesmo papel que “Discipline” desempenhou em The Slip (2008), mas com gabarito suficiente para subir a este olimpo. Se alguém decidir servir-se desta lista para um primeiro contacto com a música dos Nine Inch Nails, creio que será um ótimo amuse-bouche, para dar as devidas boas-vindas sem assustar.
2. “The Hand That Feeds”
Em 2005, Trent Reznor apresentou With Teeth ao mundo com, possivelmente, aquilo que de mais parecido com uma canção pop os Nine Inch Nails jamais haviam parido (o segundo single do álbum, “Only”, trataria de ocupar essa posição logo de seguida). Isto, per se, tanto poderia ser um elogio como o contrário. Neste caso, é definitivamente um elogio. Aliás, “The Hand That Feeds” é, para mim, uma canção muito especial. Não só porque a sua orelhuda letra sobre cuspir no prato em que se come me arrebatou, mas também porque a ela recorro com frequência para listas de melhores canções de variadíssimos temas (“canções sobre liberdade”, “canções com partes do corpo no título”, etc.). Obviamente, o tema “canções dos Nine Inch Nails” não iria ser a exceção.
3. “The Perfect Drug”
Trent Reznor tem-se revelado particularmente fértil nos finais de décadas (espero que tal se repita nesta e, já agora, que regresse de uma vez por todas aos nossos palcos). No epílogo dos anos 90, vários filmes integraram temas inéditos de assinatura NIN na respetiva banda sonora. “The Perfect Drug” — do icónico Lost Highway (1997), de David Lynch — é o que mais se destaca nessa categoria. Ao ouvi-lo, gosto especialmente de como me soa à tentativa de exorcização de sentimentos por parte de uma criatura inadequada que descobriu o amor e, não tendo a mais ténue noção de como expressar o que lhe vai na alma, fá-lo através das referências que a sua experiência de vida lhe põe a jeito. Além disso, tenho ideia de que o conheci através do single de “We’re in This Together” — e, convenhamos, trata-se de um autêntico “match made in hell”.
4. “Terrible Lie” + 5. “Sin”
https://soundcloud.com/nineinchnails/terrible-lie
https://soundcloud.com/nineinchnails/sin-1989
Comecei esta lista com o mais recente álbum de originais. Chega agora o momento de recuar até ao mais antigo (Pretty Hate Machine, de 1989), com uma dupla escolha. No meio de todo o ruído industrial que caracteriza o grosso da primeira década dos Nine Inch Nails e que poderá facilmente soar indistinto a ouvidos mais inocentes, “Terrible Lie” e “Sin” sobressaem e tornam-se reconhecíveis de imediato. Isso é ainda mais notório ao vivo, ocasião em que ambas ganham toda uma outra força. Não será por acaso que, de resto, são duas das presenças mais assíduas nos alinhamentos dos concertos da banda. O que nos leva a…
6. “Wish”
Em 1992, os Nine Inch Nails lançaram um EP com 99 faixas. Na verdade, Broken tem apenas oito (belíssimas) canções, e uma delas — “Wish” — poderia ser descrita nos mesmos termos com que me debrucei sobre “Terrible Lie” e “Sin”, sobretudo no que toca ao seu poderio ao vivo, mas injetando-lhes uma dose generosa de esteróides.
7. “Right Where It Belongs”
https://soundcloud.com/nineinchnails/right-where-it-belongs
A menos que nunca tenham ouvido o tema que encerra With Teeth, sabem que não há nada a dizer. É perfeito. Ponto. Ainda assim, deixo dois conselhos para quem eventualmente ache que, apesar de tudo, tem demasiado ruído para os seus sensíveis tímpanos: ganhem juízo, pás; e ouçam a versão “Right Where It Belongs v.2”, que até aleija — no bom sentido — de tão límpida que é.
8. “Gunshots by Computer”
Y34RZ3R0R3M1X3D é o disco de remisturas de Year Zero (ambos de 2007) e arranca com esta reconstrução do seu tema de abertura arquitetada pelo enorme Saul Williams. Em menos de dois minutos, “Gunshots by Computer” não deixa pedra sobre pedra, com versos assertivos sobre o apocalipse orwelliano que deu o mote a esta era dos Nine Inch Nails debitados com fulgor por cima da instrumental “Hyperpower!”.
9. “The Great Destroyer”
A única representante de Year Zero nesta lista poderia muito bem ter no seu lugar uma segunda mandatária de Y34RZ3R0R3M1X3D. Confesso que cheguei a ponderar “gastar” duas das 14 vagas, mas achei por bem não o fazer, o que me deixou com o dilema de escolher a versão original de “The Great Destroyer” ou a remistura dos Modwheelmood. São as duas tão boas, caramba! Curiosamente, é na original — que constitui o momento mais alto de Year Zero — e não na remistura — que dá ares de versão acústica — que, a meio da sua curta duração, a canção e o poema são mandados para o galheiro, e entramos num mundo deliciosamente infernal de distorção sónica.
10. “We’re in This Together”
Não sei bem como é que isto aconteceu, mas, sim, ratifiquei a entrada neste lote de elite a apenas uma canção de The Fragile. Convém talvez relembrar/esclarecer que The Fragile é o álbum duplo absolutamente épico que os Nine Inch Nails deram à luz em 1999. Não obstante, a literalmente grande campeã não é uma canção qualquer. “We’re in This Together” é, aliás, uma canção-fetiche para mim. O que é só uma forma diferente de dizer que é provavelmente a minha canção favorita dos Nine Inch Nails.
11. “I’m Afraid of Americans”
“Ui. Então? Esta não é dos Nine Inch Nails!” Pois não. Mas poderia muito bem ser. Calha de ter David Bowie como autor e intérprete original, é certo, porém Trent Reznor surge como parceiro de crime, quer na versão mais conhecida da canção, quer no próprio videoclipe (repararam como ostentam ambos a mesma barbicha?), quer ainda nas digressões conjuntas que aconteceram nos tempos de antanho. Eu conheci-a precisamente num concerto dos Nine Inch Nails. E fez todo o sentido.
12. “All the Love in the World”
https://soundcloud.com/nineinchnails/all-the-love-in-the-world
Já falei do tema que fecha o álbum With Teeth com chave de ouro. Agora, conversemos um pouco sobre o tema que o abre. “Why do you get all the love in the world?” é a questão colocada (repetidamente) ao longo dos seus mais de cinco minutos, e eu sinto que dez anos depois continua sem resposta. Ainda não revelei que With Teeth foi o meu primeiro álbum dos Nine Inch Nails, pois não? Foi o primeiro que ouvi (repetidamente, sobretudo nas quentes noites do verão de 2005) de uma ponta à outra e foi o que me fez embrenhar-me em toda a discografia anterior e posterior do senhor Reznor. Lembro-me de estar a estudar para exames do secundário, com o quarto às escuras e a secretária iluminada apenas pelos LED do meu extravagante computador de então, e de a canção — ou a questão supracitada — ecoar em mim à medida que ia escalando o seu imparável crescendo, antes de dar espaço ao resto do disco. Talvez tenha sido a escolha menos imediata para esta lista, mas ei-la aqui com todo o mérito.
13. “Something I Can Never Have”
https://soundcloud.com/nineinchnails/something-i-can-never-have
Quase a terminar, volto a picar o ponto em Pretty Hate Machine. Apercebi-me recentemente, ao elaborar listas das minhas canções preferidas de outras bandas, de que, no meio de muita rockalhada, tendo a atribuir o grande prémio às baladonas. “Something I Can Never Have” terá sido o primeiro espécime do que se poderá considerar uma balada de Nine Inch Nails. Bem sei que teve a sorte de surgir quando ainda não existia uma “Hurt” para comparação, mas faz valer a sua sólida presença entre estas minhas escolhas com os seus atributos intrínsecos. E, se ainda na entrada anterior fiz referência aos crescendos tão típicos de Reznor, aqui não há nada disso: são quase seis minutos de sofrimento (do artista, não para quem ouve), sem qualquer explosão.
14. “Self Destruction, Final”
A última das remisturas de J. G. Thirlwell para “Mr. Self Destruct” tem quase dez minutos. Dez gloriosos e caóticos minutos. Talvez os dez minutos de música que mais gostei de passar na rádio até hoje. E não, não estou a fazer batota ao ir buscar uma remistura de um tema de The Downward Spiral, por mais que o original seja reconhecível na esquizofrenia desta versão incluída em Further Down the Spiral (1995). Até porque, se quisesse fazer batota, resgataria para aqui a “Quiet Version” de “Hurt” ou uma das inúmeras versões/remisturas de “Closer” ou… Aliás. Que se dane. Jogo abaixo.
14. “Closer (Precursor)”
https://soundcloud.com/nineinchnails/closer-precursor
Esta é que é a minha última escolha para esta lista nada definitiva. Podem encontrá-la no single Closer to God, por exemplo, ou como banda sonora da melhor sequência de abertura de um filme de sempre: a de Seven — 7 Pecados Mortais, de David Fincher.
Pronto. A minha seleção está feita. Reclamem à vontade nos comentários, mas, acima de tudo, não se coíbam de partilhar a vossa própria lista de convocados.