O regresso à melhor festa do Porto superou todas as expectativas.
O cartaz estava bem composto e a simultaneidade de alguns dos concertos, fruto da reorganização do Club (ex-Clubbing), forçou a opção natural pelos chamados “cabeças de cartaz”: Bombino e Legendary Tigerman (e mais tarde um pouco de Dorfmeister, para fechar a noite em beleza).
A minha estreia em concerto com o nigerino (não confundir com Níger com Nigéria – são dois países bem distintos, principalmente em termos musicais) foi uma bela surpresa.
No entanto, apelidar Bombino de Hendrix africano é nitidamente uma sobrevalorização para efeitos promocionais e ligeiramente enganadora. O seu som recupera para o séc XXI a herança dos vizinhos malianos, com ecos da guitarra e da djarka de Ali Farka Touré, da kora de Toumani Diabaté e os trinados do alaúde mais a oriente, a que junta a irreverência do rock mais celebratório e da música tuareg, característica dos homónimos povos nómadas do Saara.
O carismático guitarrista, invariavelmente afável, surgiu em palco acompanhado por um baixo ultra seguro, uma máquina por detrás da bateria e uma guitarra-ritmo, que frequentemente trocava o acompanhamento pelo desafio com Omar, como se assistíssemos a uma discussão entre irmãs desavindas.
À semelhança das composições, o concerto evoluíu em crescendo.
O alinhamento focou-se essencialmente no mais recente Nomad (Nonesuch, 2013), um dos grandes álbuns dos últimos tempos, com o dedinho do influente Dan Auerbach, produtor cada vez mais refinado e solicitado, entre umas “perninhas” com os Black Keys.
A voz do africano soava a um Dylan do deserto. Cada nota, cada cadência, cada batida convidavam os corpos à dança de forma irresistível. À 2ª música apareceram as inevitáveis palmas e a energia no ar era quase palpável, com os corredores laterais da Sala Suggia já repletos de almas sedentas da liberdade que só o ritmo e a música oferecem.
A experiência de Bombino em disco fica muito aquém da chama que atiça ao vivo. Sem o confinamento do estúdio, os solos ganham novas texturas e intensidade. A alegria e generosidade do quarteto são contagiantes e o seu talento é mais que óbvio.
As letras são completamente incompreensíveis mas tal torna-se irrelevante, entre sorrisos cúmplices partilhados com estranhos, de repente parte de uma mole humana trespassada por algo que transcende aquele espaço e momento.
As cores intensas das roupas dos músicos (amarelo, roxo, vermelho) são o espelho perfeito das emoções que veículam. A estrutura das melodias ao vivo passa invariavelmente por uma introdução tranquila de Bombino, com um curto solo, para em seguida a bateria dar o mote para o resto da banda tocar a base melódica. Depois de uma pequena jam, segue-se um crescendo de ritmo e intensidade, acompanhado das invectivas cada vez mais entusiasmadas de um público facilmente conquistado pela eficácia das canções.
Áparte alguns problemas técnicos (o som da guitarra só ficou perfeitamente audível à 4ª música e a bateria ficou sem pedaleira durante uma música – em que a banda e o público continuaram a festa), Bombino foi um excelente anfitrião da nossa visita guiada a sonoridades que infelizmente escasseiam a norte de Gibraltar.
A faixa que ainda me acompanha e acompanhará nos próximos tempos, fácil de trautear e viciante, é “Her Tenere” (no deserto). Sem dúvida a mais reconhecida entre o público, espoletou uma festa intensa e inesquecível.
À 7ª música, o povo invade a frente de palco, perante a impotência dos dois seguranças encarregues de garantir a inviolabilidade daquele espaço aparentemente sagrado neste nova reencarnação do Clubbing. Bombino no seu francês impecável e tímido agradece novamente e diz estar em casa: “Porto c´est la maison”.
O final foi apoteótico, plena comunhão entre banda e público, aplausos, gritos, alegria desmedida.
Omar Moctar e a sua banda merecem um palco maior, talvez na “1ª liga” da época alta festivaleira, que ficaria melhor servida do que com os “cromos” do costume, repetidamente impostos em cartazes que já conhecemos antes de serem revelados. Mudam locais e promotores, as bandas são as mesmas.
Como seria bom que a vida fosse um concerto de Bombino. Seríamos bem mais felizes.
Aproveitei a vénia final do quarteto e, sem esperar pelo encore que se seguiu, passei à Sala 2, onde Matt Elliot terminava o seu concerto.
A música final foi uma inesperada versão de “From Russia with Love”, irónica e certeira nestes tempos em que os anseios imperialistas regressam em força a Leste da velha cortina de ferro. A interpretação foi impecável. Guitarra, voz e silêncio, nas mãos certas, bastam para criar boa música.
Pouco tempo depois, com a garganta já retemperada e as primeiras impressões trocadas entre amigos de passagem pelo bar, seguia-se Legendary Tigerman no cardápio.
Basta uma pesquisa pelos alinhamentos dos concertos e uma escuta mais atenta dos discos de Paulo Furtado para que seja óbvio o seu conhecimento da história do blues e do rock. Empenhado, competente e tecnicamente capaz de uma homenagem digna a estas raízes, o histórico músico conimbricense criou com sucesso uma personagem marcante e original no panorama musical português.
No entanto, a pose, por vezes excessiva, cria distanciamento do público (ou pelo menos, a aparência dele) e retira força e crueza à música que apresenta.
Quando Furtado se entrega à música com a raiva e libertinagem que só os puros sangues do rock n´roll podem ansear atingir, cria grandes momentos, daqueles que recordamos sem recurso a notas para partilhar com quem (ainda) lê estas crónicas.
A tour internacional do novo True (2014) chegava ao seu 97º concerto, penúltimo antes do merecido descanso.
True, um dos álbuns portugueses do ano, representou um passo adiante para esta encarnação de Furtado, em que junta teclas, arranjos de cordas, bateria e saxofone à sua clássica “one man band”, criando um álbum refinado e de fôlego, que nada fica a dever a qualquer banda presente nos tradicionais tops de fim de ano.
O concerto começou tímido, com a plateia bem composta mas sem lotar a pequena sala, aproveitando para recuperar o fôlego do chorrilho de emoções anterior ao som da dolente “Rainy Day”.
“Do Come Home”, acompanhada do correspondente vídeo oficial, manteve a toada mais calma para depois passarmos ao rockabilly arraçado de blues de “Walking Downtown”, regresso ao já longínquo Masquerade (2003).
“Naked Blues” veio acompanhada da curta de André Cepêda, transpirando ainda mais sexo e indolência e a entrada em cena do baterista Paulo Segadães na música seguinte, pouco contribuiu para resgatar o público de uma estranha apatia.
“Storm over Paradise”, uma das melhores de True, trouxe ao palco o saxofone insano de João Cabrita, que transportou a minha memória aos solos geniais de Dana Colley nos defuntos Morphine.
A dinâmica do trio levou o espectáculo a um nível superior, com uma química especial entre Cabrita e Furtado, que faiscava a cada nota trocada.
A dupla “And Then Came the Pain” (de Femina, no original com a voz escaldante de Phoebe Killdeer) e “Gone” soltou todos os demónios do sax de Cabrita, com solos excepcionais e notas ferozes, um toque de free jazz e um som de palco excelente, a acordarem finalmente o público para o grande concerto que decorria diante dos seus olhos.
Seguiu-se a homenagem a um dos ídolos de Furtado, Eddie Cochrane, com a versão do clássico dos 50´s “Twenty-Flight Rock”, história que Tigerman introduz como o amor impossível com uma miúda gira, dona de uma excelente colecção de discos, mas que morava no 20º andar (e não havia elevador…).
Depois da romântica homenagem à casa verdadeira em “My Heart. Safe At Home”, a sempre esperada “These Boots Are Made For Waking” soou mais poderosa, com sax e bateria como motores de propulsão a estilhaçarem o famoso refrão e Maria de Medeiros no ecrã, protagonista da curta filmada pelo próprio artista.
A montanha russa tinha chegado ao topo da rampa mais íngreme e a partir daqui, a adrenalina subiu, enquanto descíamos sem freio em direcção ao final.
“The Saddest Thing to Say” trouxe a voz virtual e maior-do-que-a-vida da Lisa Kekaula, um dos melhores singles da discografia do Homem Tigre. “Big Black Boat” e o seu omnipresente kazoo fizeram tremer a sala e o surf-rock de “21st Century Rock n Roll” pôs o público a berrar ROCK N ROLL!!! com a banda como se o Porto inteiro os pudesse ouvir.
Furtado largou o micro e subiu à bateria, palanque improvisado, para pregar a mensagem profana do Rock, qual pastor de rua predestinado e louco. A pose desfeita, microfone em riste como uma Klashnnikov, entregue finalmente à plateia que o aplaude sem cessar.
Paulo Furtado é um artista ímpar. Imperfeito como todo o Rock, ímpar na sua visão, intenso como um bom bourbon, fiel apenas a si mesmo.
Que conte ainda muitos e bons anos, porque o caminho que o espera só trará boas novas para quem o segue.
Texto de Paulo Silva