O Strobe rumou na semana passada a Trás-os-Montes para a 10ª edição do Rock Nordeste, onde este ano estreou um novo formato, uma clara aposta na qualidade e no que melhor se faz no panorama nacional da música. Ficamos agradavelmente surpreendidos com as actuações dos artistas, assim como o ambiente vivido no Parque Corgo ,em Vila Real. O evento, foi uma co-produção entre Douro Alliance, Câmara Municipal de Vila Real e Covilhete na Mão.
1º Dia – 26 de Junho
Foi já com o Sol a tapar-se por trás dos montes que rodeiam Vila Real, que a dupla Octa Push subiu ao Palco Parque para dar o arranque ao festival. Estes portugueses radicados em Londres trouxeram-nos o mais recente Oito, álbum esse editado no ano passado pela londrina Senseless Records. Embora a actuação tenha sofrido um pouco com o público que ia chegando ao recinto do festival ou que abastecia o organismo na zona de restauração, não foi por isso que deixaram de passear em palco um excelente misto de ritmos electrónicos com batida orgânica que, mesmo por vezes sendo um tudo-ou-nada repetitivos, ajudaram a levantar o pé do chão a todos aqueles que se encontravam em frente ao palco.
Seguiria-se Ana Matos, ou Capicua, como é mais conhecida entre nós, o primeiro “gigante” do cartaz do festival transmontano. Acompanhada da inseparável M7, e do designer Dário Cannatá, que ilustrava in-loco e live a actuação, Capicua mostro que o que faz, como na letra de Feias, Porcas e Más, “é Rock Durinho, filho”. Garra, feminismo bem vincado, um line-up que embora se centre no longa duração Sereia Louca, também pesca grandes malhas nos trabalhos anteriores. Arrancando com “Sereia Louca”, 1º single do álbum com mesmo nome, que já tinha sido antecedido de uma pequena intro contada como se uma história fosse, baseado na temática do disco. Não faltaram temas da praxe como “Mão Pesada”, “Medo do Medo”, uma versão a cappella de “Jugular”, e claro, o novo single “Vayorken” que fez as delícias da criançada que também compunha a plateia.
Terminadas as principais actuações do primeiro dia, foi a vez da Bandit Room, que estava a cargo da curadoria de djs no festival, tomar conta das operações e apresentar Switchst(d)ance atrás da mesa de mistura. Os mais entusiasmados ficaram um tudo ou nada desapontados com o facto da actuação ter terminado cedo, no entanto, o melhor ainda estava para vir no dia seguinte.
2º Dia – 27 de Junho
Ao segundo dia de festival, foi a vez dos Brass Wires Orchestra abrir o principal palco do evento.Trazendo o seu primeiro disco Cornerstone no bolso das calças, a banda de Lisboa mostrou-se com um folk que aqui e ali nos fazia lembrar Beirut. Sem deslumbrar, a morna actuação serviu essencialmente para os festivaleiros, sentados na relva, aproveitarem o final de tarde solarengo e acolhedor que se espalhava pelo Parque Corgo.
Segue-se o quarteto de putos mais fixe da região do Minho. The Glockenwise e o seu garage-rock, claro está. Estas andanças não são novidade para os jovens barcelenses, e contagiaram o público com muito rock descomprometido e odes à juventude e à irreverência. Com um set centrado essencialmente em Leeches, segundo disco da banda editado no ano passado, mas passando também por clássicos de Building Waves e ainda de novos temas, os Glockenwise mostraram o porquê de serem um dos projectos rock mais interessantes no nosso território. Riffs simples mas viciantes, letras desinibidas mas “catchy”. Ainda houve direito a um divertido momento, com a subida ao palco por um fã que envergava uma camisola de Suarez e que simulou uma “mordidela” a um dos membros da banda.
Findada a primeira ronda de concertos no Palco Parque, os festivaleiros dirigiram-se para o anfiteatro do auditório do Teatro de Vila Real para assistirem ao grande cabeça de cartaz do festival, Dead Combo. A escadaria de cimento que compõe o anfiteatro foi completamente lutada por uma multidão que esperava com grande entusiasmo pelo regresso dos lisboetas a Trás-os-Montes, que desta vez trouxeram consigo “A Bunch of Meninos”, o seu mais novo rebento em forma de música. Com um bonito cenário montado em palco, e com o baterista Alexandre Frazão a juntar-se à dupla Tó Trips e Pedro Gonçalves, o público deixou-se levar pelas belas composições dos músicos, solitárias mas reflexivas e energéticas, sendo Lisboa Mulata o ponto alto deste concerto. A adição do já mencionado baterista, é o grande trunfo da banda. A qualidade de Frazão é assombrosa, assumindo-se como um dos melhores bateristas nacionais, e vinca o ritmo sublime empregado na maioria dos temas.
Enganados estavam aqueles que pensavam que não haveriam mais momentos memoráveis após a actuação dos Dead Combo. Sensible Soccers chamaram de novo o público ao Palco Parque para assistirem ao melhor concerto do festival, na nossa opinião. A banda de Fornelo, que este ano também se estreou no capítulo das longa-durações, com 8, goleou em Vila Real com um belo line-up composto também por temas dos EPs anteriores. Melodias Pop repetidas ao infinito, as teclas que nos hipnotizam sem pedirem permissão, os riffs de guitarra que primeiro se estranham e depois se entranham, a electrónica a convidar à dança, o “samba psico-popeiro” como alguém referiu durante o concerto. Os Sensible Soccers são isto e muito mais. São a encarnação e a bandeira de tudo de bom que se faz na música portuguesa. Demonstram uma perfeita sintonia entre os seus membros, sendo o expoente máximo desse factor a maneira como desbravam caminhos durante o tema “Ulrike”, tema que não vinha a ser tocado nos primeiros concertos de apresentação do seu disco. Haveria ainda o encore da praxe, com a maravilhosa “Sofrendo por Você”. Um tiro certeiro este final, que nas palavras de Gabriel Alves seria um golo “ao ritmo tropical em passada de Samba”.
A noite não encerraria sem mais Bandit Room para animar os mais resistentes e fãs da electrónica dançável. Midnight e Steve Parker foram os escolhidos para a tal, tendo a noite se prolongado até às 4h da manhã.
Belo festival que se montou em Vila Real, celebrando a música nacional e a aposta na qualidade. As condições mais que boas, o belo cenário e o cartaz praticamente irrepreensível, são as razões que só nos fazem esperar ansiosamente pela próxima edição.
Reportagem de Paulo Doellinger