36 anos de carreira em que nunca procuraram globalizar-se.
Antes de mergulharmos no caso paradoxal dos And Also The Trees há que esclarecer que, de entre as inúmeras conceções de “sucesso”, aquela sobre o qual este artigo se debruça, é, em traços gerais, o reconhecimento generalizado de uma banda e o status/conforto financeiro que a ascenção a um certo patamar conseguem garantir.
A ligação (de amizade) que une a banda dos irmãos Simon e Justin Jones aos The Cure remonta ao ano de formação da banda, 1979, quando responderam a um anúncio da banda de Robert Smith que procurava banda de apoio para a sua digressão. Para além das diversas tours que fizeram nos primeiros anos da década de 1980, a produção da segunda demo tape dos AATT, From Under the Hill, por Robert Smith e Mike Hedges, viria a cimentar esta ligação. A fase inicial da banda, musicalmente muito próximo do pós-punk/gothic rock mais clássico praticado por Bauhaus e Joy Division, tem o seu pináculo com o primeiro álbum da banda, And Also The Trees, produzido pelo teclista de The Cure Lol Tolhurst.
É o lançamento em 1985 do EP A Room Lives In Lucy que demonstra os primeiros passos na definição musical dos AATT, cada vez mais distantes de muitos dos padrões adotados por muitas outras bandas da cena goth britânica. O som análogo ao de um bandolim que Justin James assumiu para a sua guitarra (e que demarcou todas as composições até aos dias de hoje) ajudaram a circunscrever musicalmente o ambiente sonoro e a estética da banda. Essa identidade tomaria um crescendo no segundo álbum Virus Meadow e viria a definir por completo a musicalidade na banda no meu álbum favorito, The Millpond Years.
Quem conhece o gothic rock desde os seus primórdios, reconhece (e identifica) as temáticas e recursos estéticos que o definem, com as notórias e demarcadas influências do género que lhe ascende, o pós-rock. A sonoridade de And Also The Trees, como afirmei, é totalmente distinta. A introspeção e o romantismo góticos existem na sua música mas com outra abordagem, muito díspar da memória urbana londrina de algumas das bandas que definiram o género. Mas é uma demarcação diferente, quase naturalista, com amplas influências da terra-natal da banda, Inkberrow, no condado inglês de Worcestershire, e essa pacatez melancólica tão típica da província.
A sonoridade dos AATT é diferente, e não me canso de o afirmar. E talvez seja essa distinção que os tenha impedido de dar o salto para um mercado “mainstream” (com as devidas aspas, a servir de comparação com o sucesso globalizado de bandas como The Cure e Bauhaus, é claro). Numa fase em que quase todas as bandas do género – mantendo-se mais ou menos fiéis à “cena” original – conseguiram caminhar para alguns êxitos mais radio-friendly, tais como os Siouxsie and the Banshees e os The Sisters of Mercy, AATT pareceram não querer mudar, ou ceder na sua sonoridade depois de a terem encontrado.
Muitas bandas aproveitariam as ligações com os The Cure, várias digressões que fizeram juntos ao longo destes 36 anos, passando em alguns remixes ocasionais de Robert Smith para os seus álbuns, e que lhes valeu a atenção da BBC Radio em 1984. Qualquer outra banda que apontasse baterias para os grandes palcos teria aqui diversas portas de entrada para um caminho ao encontro da globalização do projeto. Mas And Also The Trees não deram esse salto, de forma, acredito, completamente consciente.
Não acredito que o que separa os AATT de uma veia mais “comercial” seja algum tipo de statement sociopolítico, mas antes a mais genuína das criações musicais. OS AATT não quiseram romper com o dramatismo ímpar que as suas músicas têm, que lhes permite destacar-se de um género, de um período histórico musical, e os mantém fiéis a si mesmos, como podemos atestar no seu último álbum de 2013, Hunter Not The Hunted. Esta fidelidade artística da banda com a sua música torna-os, como é fácil de perceber, pouco habilitados a terem o estrelato de outras bandas suas contemporâneas. E esta fidelidade tem apenas um destinatário: nós, que seguimos a sua música pela unicidade que têm num mercado (quase) sobrelotado e muitas vezes fac-similado.
Vê-los ao vivo no Entremuralhas, com a paixão e o sentido artístico que carregam há quase quarenta anos, é uma lição de humildade. Pelo meio das notórias personalidades mais reservadas dos membros da banda (que caminhavam calmamente pelo evento após o seu concerto, e com o qual tive o prazer de trocar uma dúzia de palavras), sente-se que os AATT estão a criar a música que querem mesmo criar. Sem roadies para montar e carregar o seu material, sem encabeçar eventos, sem serem um nome conhecido para além da vaga noção que muitos têm da ligação que têm a Tolhurst e os The Cure, mas felizes e a criar boa música há várias décadas.
E o sucesso, essa definição generalista que concebemos como padrão? Muito provavelmente os AATT atingiram o sucesso que queriam, mantendo a sua música num limiar de qualidade constante (e alto), e o reconhecimento das pessoas que os seguem e que compreendem e sentem as suas músicas abraçam-lhes a alma em proximidade, não em quantidade. Sentir esse retorno emocional da parte do seu público poderá ser tudo o que esperam e almejam. E se isso não é a mais elementar noção de sucesso, então não sei qual será.