A mais famosa banda grega de rock progressivo teve dois membros de peso na sua constituição.
Antes disto…
…e disto…
…aconteceram os Aphrodite’s Child, a banda de rock progressivo/psicadélico mais proeminente da Grécia. A banda é a (aparentemente) estranha união entre Demis Roussos e Vangelis, dois artistas que se notabilizaram globalmente com caminhos muito distintos do prog rock. O que não significa que nos cinco singelos anos que a banda durou não tivessem produzido alguns bons exemplos do que de melhor se fez na música europeia daquele período.
(Nota: depois de termos visto na semana passada que Carlos Alberto Vidal, o Avô Cantigas, teve um álbum de rock progressivo de imensa qualidade, cuja raridade o torna altamente cobiçado pelos amantes do género, descobrirmos que Demis Roussos e Vangelis também andaram pelo caminho do prog é pouco surpreendente.)
A história da sua curta existência é tão caricata que quase conseguimos ver uma adaptação ao cinema pela mão de Steven Spielberg com banda sonora do John Williams e com o Tom Hanks a fazer de Demis Roussos, de Vangelis e do ditador grego Georgios Papadopoulos em simultâneo, na esperança de alcançar o terceiro Oscar da sua vida.
Artemios Ventouris Roussos (Demis Roussos) e o baterista Lucas Sideras tinham combinado encontrar-se com Evengelio Odyssey Papathanassiou (Vangelis) no Reino Unido, no Verão quente de 1968. Os três jovens músicos tentavam fugir da ditadura militar que se tinha instalado na Grécia em 1967 e procuravam estabelecer-se em Inglaterra, onde o rock (em especial o progressivo) demonstrava ter margem de apoio para que conseguissem subsistir apenas da sua música. Vangelis tinha saído da sua primeira banda, os Fornix, em 1966, e estava à procura de um novo projeto.
O serviço de estrangeiros e fronteiras britânico acabou por impedir a entrada dos três músicos, que não só não possuíam visto de trabalho como demonstravam pela sua bagagem que não eram turistas, mas que tentavam sedimentar-se no país. Sem vontade de regressar para a Grécia, controlada pela ditadura da Junta Militar liderada por Papadopoulos, decidiram tentar a sorte em Paris. Tivessem eles ficado retidos indefinidamente no aeroporto e seria mais um capítulo da vida da banda feito à medida de Spielberg.
Foi na capital francesa que encontraram o último elemento da banda, Silver Kouloris, e fecharam finalmente a formação da banda a que dariam o nome de Aphrodite’s Child, uma tentativa de misturar o rock progressivo e psicadélico que chegava do Reino Unido com uma sonoridade mais enraizada na música tradicional grega. Kouloris, que não tinha cumprido o serviço militar obrigatório, acabaria por não chegar a gravar nem o primeiro álbum da banda porque teve de regressar à Grécia para o fazer. Nesta fase em que Kouloris esteve fora, Roussos juntou o papel de guitarrista às suas tarefas de baixista e vocalista dos Aphrodite’s Child.
O seu primeiro single “Rain and Tears” foi lançado em 1968 e tornou-se num tremendo êxito de vendas na Europa, vendendo cerca de 1 milhão de cópias. Ainda no mesmo ano editaram o primeiro álbum, End of the World, que unia uma sonoridade mais radio-friendly a um proto-prog rock semelhante ao de Shine On Brightly, dos Procul Harum.
O segundo álbum, It’s Five O’ Clock, foi gravado em Londres e lançado em janeiro de 1970. Um álbum musicalmente mais comercial, repleto de baladas, gravado ainda sem Kouloris, que só reintegraria a banda no final desse ano. “Let Me Love, Let Me Live” e “Spring, Summer, Winter and Fall” foram os dois singles do álbum, cuja digressão não contou com Vangelis que já começava a apostar na sua carreira a solo e esteve neste período a desenvolver a banda sonora para o filme Sex Power do realizador francês Henry Chapier.
Silver Kouloris regressou então à banda para a gravação daquela que seria a obra-prima dos Aphrodite’s Child e simultaneamente o seu canto do cisne, bem como uma dos mais importantes obras conceptuais da história do rock progressivo: 666.
666, álbum conceptual duplo cujas letras foram escritas pelo realizador grego Costas Ferris, partiu de uma ideia de Vangelis, que queria desenvolver uma interpretação musical do Livro do Apocalipse. Ligando brilhantemente o rock progressivo e psicadélico à música religiosa ortodoxa grega, 666 acabaria por ser lançado apenas após o término da banda.
A relação dos diversos membros estava francamente em declínio com os três membros originais a quererem perseguir abordagens distintas na música: Vangelis tentava complexificar as suas composições, Roussos e Sideras queriam enveredar por um caminho mais pop. Esta turbilhão interno juntava-se ao atraso no lançamento do álbum, controverso pela sua temática e não só, gerando desconforto na Mercury Records, a editora da banda, que se opunha à criação de um álbum conceptual duplo, ao experimentalismo extremo de muitas das 24 faixas e a momentos como “∞”, o quinto tema do segundo disco, em que a atriz grega Irene Papas simula um orgasmo ao longo dos seus cinco minutos de duração.
666 colocou para sempre o nome dos Aphrodite’s Child na história do rock progressivo. Além de toda a provocação cultural, política e religiosa incluída neste brilhante álbum, a banda ainda acicatava o público e a editora com a declaração de que todas as músicas tinham sido compostas sob o efeito de Sahlep, que apesar de ter nome de opiácio é na verdade uma bebida não alcoólica turca.
“We got the system to fuck the System”: assim começa 666, que tem no seu primeiro disco aquela que é para mim uma das melhores músicas deste período histórico do rock progressivo europeu. Essa música é “The Four Horsemen”, que demonstra todo o talento destes quatro músicos gregos. Não há melhor forma de terminar uma banda, de fechar um ciclo, de fechar a porta e desligar as luzes do que sair em alta, como aconteceu com os Aphrodite’s Child e este 666. Apesar da sua história curta e quase rocambolesca, os Aphrodite’s Child não são apenas a ex-banda de Demis Roussos e Vangelis, mas sim um dos bons projetos experimentais do rock progressivo europeu.

